Mundo

Krugman chama acordo de Trump na Venezuela de imperialismo

Colunista do NYT vê em tratativa retomada de práticas coloniais sobre países latino-americanos

Krugman chama acordo de Trump na Venezuela de imperialismo

Nobel de Economia compara acordo de Trump por petróleo venezuelano a "imperialismo extrativista" do século 19

O vencedor do Nobel de Economia Paul Krugman classificou nesta terça-feira (1º) o acordo anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para ampliar o controle norte-americano sobre reservas de petróleo da Venezuela como uma tentativa de apropriação de recursos que "validou tudo o que a esquerda latino-americana já disse sobre o imperialismo dos EUA". Em análise publicada em sua conta no Substack, o economista afirmou que a operação teria benefícios econômicos "praticamente nulos" para os EUA e poderá gerar custos diplomáticos e estratégicos por décadas. Segundo o portal Terra.com.br, a declaração reacende o debate sobre o real alcance da parceria e o impacto geopolítico na América do Sul — região em que o Brasil é o maior produtor de petróleo e mantém fronteira com a Venezuela.

Trump afirma ter "controle majoritário" de mais de 65 bilhões de barris

Na semana passada, Trump afirmou que Washington obteve "controle majoritário" de mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas da Venezuela, por meio de parceria com empresas privadas. Segundo o presidente americano, a operação mais do que dobraria as reservas estratégicas dos EUA e reduziria "substancialmente" os preços dos combustíveis no mercado interno.

O número é expressivo no papel: a Venezuela detém uma das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, concentradas em grande parte na Faixa Petrolífera do Orinoco, região de crudo extrapesado, de difícil e cara extração. Ainda assim, Krugman contesta ponto a ponto a promessa feita por Trump.

Por que Krugman diz que o ganho econômico seria "quase nulo"?

O cálculo do economista é direto. Mesmo atribuindo uma margem de lucro de US$ 20 por barril aos 65 bilhões de barris citados por Trump, o valor econômico máximo do acordo chegaria a cerca de US$ 1,3 trilhão — distribuídos ao longo de muitos anos. Para Krugman, o montante é pequeno diante da riqueza total dos EUA, estimada por ele em US$ 167 trilhões.

Em outras palavras, mesmo no cenário mais otimista, o pacote representaria menos de 1% da economia norte-americana e seria diluído em um horizonte de décadas. Krugman também questiona a viabilidade operacional do plano:

  • A recuperação da infraestrutura petrolífera venezuelana — degradada por anos de subinvestimento, sanções e crise econômica — exigiria dezenas de bilhões de dólares em aportes iniciais.
  • O processo poderia levar anos ou décadas até que volumes relevantes de produção fossem alcançados.
  • Parte das reservas, especialmente na Bacia do Orinoco, é de extração difícil e cara, o que reduz a margem real do negócio.
  • Existe o risco de futuros governos venezuelanos recusarem os termos ou expropriarem investimentos americanos, como já ocorreu em outros ciclos políticos na região.

O acordo deve baixar o preço da gasolina nos EUA?

Não no curto prazo, segundo Krugman. Qualquer aumento relevante da produção venezuelana sob controle norte-americano levaria tempo considerável — e o benefício prometido por Trump aos consumidores americanos, de queda nos preços dos combustíveis, não viria antes desse intervalo. Para o consumidor brasileiro, aliás, o efeito direto também tende a ser limitado, já que o mercado interno é fortemente atrelado ao preço do petróleo Brent e às políticas da Petrobras, e não às cotações do crudo venezuelano.

O tema, porém, está na agenda do dia em Washington. Trump tem reunião marcada para esta terça-feira, às 14h30 (horário de Brasília), com varejistas e refinarias de petróleo e gás na Casa Branca. No dia anterior, o secretário do Interior dos EUA, Doug Burgum, afirmou que o encontro discutiria formas de reduzir os preços do combustível no país.

"Não é sobre democracia, crime ou terrorismo"

Um dos trechos mais duros da análise de Krugman é o de que o acordo "não estaria ligado à promoção da democracia, ao combate ao crime ou ao terrorismo, mas a uma tentativa direta de acessar o petróleo venezuelano". Ao traçar o paralelo com o imperialismo extrativista do século 19, o economista sugere que a operação se aproxima mais da lógica das antigas potências coloniais — que ocupavam territórios para explorar matérias-primas — do que de uma estratégia energética moderna, baseada em contratos comerciais e parcerias entre iguais.

A avaliação ainda não foi respondida oficialmente pelo governo Trump nem pelo governo venezuelano. Até o momento, não há confirmação pública sobre quais empresas privadas participariam da parceria nem sobre os termos exatos do controle "majoritário" citado pelo presidente americano.

O que está em jogo para o Brasil e a América do Sul?

Mesmo que o impacto direto sobre o consumidor brasileiro seja restrito, o acordo tem repercussões relevantes para o país em pelo menos três frentes:

  1. Geopolítica regional: a Venezuela é vizinha do Brasil e historicamente mantida sob vigilância em temas como fronteira, imigração e segurança. Uma mudança no controle efetivo de seus recursos naturais tende a alterar o equilíbrio de influência dos EUA, da Rússia e da China na região — esta última, grande compradora de petróleo venezuelano nos últimos anos.
  2. Mercado global de petróleo: a entrada de novos volumes venezuelanos no mercado, ainda que a longo prazo, pode pressionar o Brent e o WTI, afetando receitas de exportação de países produtores, incluindo o Brasil.
  3. Sinal político: a linguagem utilizada por Trump — "controle majoritário" — e a reação de Krugman alimentam narrativas críticas ao intervencionismo norte-americano na América Latina, tema historicamente sensível para a diplomacia brasileira.

Quais são as principais críticas de Krugman ao acordo?

  • Geração de valor: o ganho potencial seria de cerca de US$ 1,3 trilhão ao longo de décadas, valor pequeno comparado à riqueza total dos EUA.
  • Custos de execução: seriam necessários dezenas de bilhões de dólares e muitos anos de investimento para viabilizar a produção.
  • Qualidade do crudo: as reservas da Bacia do Orinoco são de difícil e cara extração, o que comprime a margem de lucro.
  • Risco político: mudanças de governo na Venezuela podem levar à revisão ou expropriação dos investimentos americanos.
  • Benefício ao consumidor: não haveria alívio imediato no preço da gasolina nos EUA — promessa central do discurso de Trump.

Perguntas frequentes

O que Trump anunciou sobre o petróleo da Venezuela?
O presidente dos EUA afirmou que Washington obteve "controle majoritário" de mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas da Venezuela, por meio de parceria com empresas privadas, o que mais do que dobraria as reservas americanas.

Qual a crítica de Paul Krugman ao acordo?
O Nobel de Economia classificou a operação como "imperialismo extrativista" nos moldes do século 19, argumentando que o benefício econômico para os EUA seria praticamente nulo diante da riqueza do país e que o acordo pode gerar custos diplomáticos e estratégicos por décadas.

O acordo vai reduzir o preço da gasolina nos Estados Unidos?
Segundo Krugman, não no curto prazo. Qualquer aumento relevante da produção venezuelana levaria anos, e o prometido alívio no preço dos combustíveis não chegaria antes disso.

O que está marcado para esta terça-feira em Washington?
Trump tem reunião fechada às 14h30 (horário de Brasília) com varejistas e refinarias de petróleo e gás na Casa Branca. O secretário do Interior, Doug Burgum, disse que o encontro discutirá formas de reduzir os preços do combustível nos EUA.

O acordo afeta o Brasil diretamente?
Não de forma imediata. O mercado brasileiro de combustíveis é atrelado ao Brent e à Petrobras. No entanto, o acordo tem implicações geopolíticas regionais e pode influenciar o preço global do petróleo e o equilíbrio de poder entre EUA, China e Rússia na América do Sul.

Gostou desta matéria? Compartilhe com quem precisa ficar bem informado e assine a newsletter do GCBS NEWS para receber as principais notícias direto no seu e-mail.

Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

Leia também