O prêmio Nobel de Economia Paul Krugman classificou como "imperialismo extrativista" o acordo anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para ampliar o controle americano sobre reservas de petróleo da Venezuela. Em análise publicada nesta terça-feira (1º) em sua newsletter no Substack, o economista afirmou que a iniciativa teria benefícios econômicos "praticamente nulos" para os EUA e poderia gerar custos diplomáticos por décadas.
O acordo, segundo o que foi divulgado pela Casa Branca na semana passada, daria a Washington "controle majoritário" sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas comprovadas venezuelanas, por meio de uma parceria com empresas privadas do setor de energia. Trump afirmou que a operação mais do que dobraria as reservas estratégicas americanas e ajudaria a reduzir "substancialmente" os preços dos combustíveis no país.
Para Krugman, a conta não fecha. Segundo o portal Terra.com.br, que reproduziu trechos da análise, o economista calculou que, mesmo atribuindo uma margem de lucro extraordinária de US$ 20 por barril aos 65 bilhões citados por Trump, o valor máximo do negócio seria de cerca de US$ 1,3 trilhão — distribuídos ao longo de muitos anos e, portanto, irrelevantes diante da riqueza total dos EUA, estimada por ele em US$ 167 trilhões.
O que Trump disse sobre o suposto acordo com a Venezuela?
Na semana passada, o presidente americano afirmou que os EUA haviam obtido "controle majoritário" sobre as reservas venezuelanas, sem detalhar publicamente quais empresas participariam da operação nem em que condições jurídicas o acordo teria sido firmado. Trump apresentou o negócio como uma solução para dois problemas ao mesmo tempo: ampliar a segurança energética americana e baratear a gasolina nas bombas.
A Venezuela já é o país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, à frente inclusive da Arábia Saudita, embora produza uma fração pequena do que extraía no início dos anos 2000. O país é sócio fundador da Opep e membro influente da Opep+, grupo que reúne os principais produtores globais. Grande parte dessas reservas está concentrada na Faixa Petrolífera do Orinoco, onde o petróleo é do tipo extra-pesado e exige tecnologias mais caras para refino e transporte.
Por que Krugman chama o acordo de "imperialismo"?
Na leitura do Nobel, a operação não tem nada a ver com democracia, combate ao crime ou segurança energética. "Validou tudo o que a esquerda latino-americana já disse sobre o imperialismo dos EUA", escreveu ele, segundo a reprodução feita pelo portal Terra.com.br. A comparação é com o colonialismo do século 19, quando potências europeias controlavam matérias-primas em outros continentes sem se preocupar com a soberania local.
Krugman destaca ainda que o governo dos EUA nunca explicou como o acordo seria executado na prática, como respeitaria a legislação venezuelana e como evitaria que um futuro governo em Caracas simplesmente expropriasse os investimentos americanos — risco elevado em um país com histórico de nacionalizações no setor petrolífero, incluindo a estatização da indústria nos anos 1970.
Quanto valem, de fato, os 65 bilhões de barris?
A conta feita por Krugman é direta: 65 bilhões de barris multiplicados por US$ 20 de margem por barril resultam em US$ 1,3 trilhão. O número parece grande, mas representa menos de 1% da riqueza americana e ainda precisaria ser diluído em décadas de produção. Para efeito de comparação, o Produto Interno Bruto (PIB) nominal dos EUA gira em torno de US$ 27 trilhões, e o orçamento federal anual ultrapassa US$ 6 trilhões.
Além disso, o cálculo de Krugman pressupõe uma margem inteira como lucro, o que é irrealista no setor: há custos de extração, refino, transporte, royalties e tributos a descontar. O próprio Trump chegou a sugerir que o valor poderia chegar a "bilhões e bilhões de dólares", mas sem apresentar planilha ou cronograma.
Quais são os obstáculos técnicos para tirar o petróleo venezuelano do chão?
Mesmo que o acordo avance no papel, a infraestrutura do petróleo venezuelano está degradada há décadas. Estima-se que seriam necessários dezenas de bilhões de dólares em investimentos para recuperar a capacidade produtiva do país, e o processo poderia se arrastar por anos ou décadas. A Venezuela já foi, nos anos 1990, um dos maiores exportadores mundiais; hoje, boa parte de sua produção é absorvida por poucos clientes e enfrenta sanções internacionais.
A Bacia do Orinoco, que concentra o petróleo extra-pesado, tem ainda uma camada extra de dificuldade. Esse tipo de crude exige diluentes, plantas de upgrade e logística específica para chegar ao mercado. Sem isso, o barril extraído vale menos e custa mais para ser processado, o que comprime ainda mais a margem defendida por Trump.
O acordo pode, de fato, baixar o preço da gasolina nos EUA?
Pelo cronograma esboçado, não no curto prazo. Krugman argumenta que qualquer aumento relevante de produção venezuelana só chegaria ao mercado daqui a alguns anos, quando a infraestrutura estivesse recuperada. Enquanto isso, o preço dos combustíveis nos EUA depende muito mais de variáveis como a cotação internacional do petróleo, a capacidade de refino interna, impostos estaduais e a dinâmica da Opep+.
O próprio governo Trump parece reconhecer o desafio. Para esta terça-feira (1º), às 14h30 (de Brasília), está agendada uma reunião fechada na Casa Branca entre o presidente, varejistas e empresas de refino de petróleo e gás. Segundo o secretário do Interior dos EUA, Doug Burgum, o encontro discutirá formas de reduzir os preços do combustível no país, o que indica que o impacto do acordo com a Venezuela não é visto, internamente, como solução imediata.
Quais os riscos geopolíticos do acordo?
Krugman enumera ao menos três pontos de tensão:
- Riscos jurídicos e soberania: qualquer mudança de governo em Caracas poderia reverter contratos, nacionalizar ativos ou simplesmente descumprir termos, gerando longos litígios internacionais.
- Risco diplomático na América Latina: governos da região tendem a reagir mal a movimentos unilaterais dos EUA sobre recursos naturais de um país vizinho, o que pode deteriorar a relação com parceiros comerciais importantes.
- Risco com a Rússia e a China: ambos países têm presença relevante em investimentos e contratos na indústria venezuelana, o que pode transformar o acordo em mais um foco de fricção geopolítica global.
Para o economista, mesmo no cenário mais otimista — em que o acordo seja cumprido e dê lucro — o ganho é pequeno demais para justificar esses riscos.
Qual o impacto indireto para o consumidor brasileiro?
O leitor brasileiro não vai ver o acordo mudar o preço do botijão ou da gasolina nas próximas semanas, mas pode haver efeitos de médio prazo. Se a produção venezuelana voltar com força ao mercado internacional, a oferta global de petróleo tende a aumentar, o que pressiona para baixo as cotações da commodity e, em tese, ajuda países importadores como o Brasil.
Vale lembrar que o preço final nos postos brasileiros depende, na verdade, muito mais do ICMS de cada estado, do preço da Petrobras e do câmbio do que da cotação internacional do barril. Ou seja: mesmo com o petróleo mais barato lá fora, o efeito na bomba pode ser limitado.
Próximos passos que vale acompanhar
- Reunião na Casa Branca: o encontro desta terça-feira com varejistas e refinarias pode dar pistas sobre quais medidas concretas os EUA preparam para tentar segurar o preço dos combustíveis.
- Detalhamento do acordo: até agora, não foram divulgados publicamente o texto do entendimento, as empresas envolvidas ou a base jurídica da operação.
- Reação do governo venezuelano: até o momento, a administração de Nicolás Maduro não confirmou publicamente o "controle majoritário" anunciado por Trump, o que mantém o acordo em terreno nebuloso.
- Posição da Opep+: qualquer aumento relevante de oferta venezuelana interfere no equilíbrio do cartel e pode provocar reações de Arábia Saudita, Rússia e demais membros.
Perguntas frequentes
O que é o acordo de Trump com a Venezuela?
É o anúncio feito pelo presidente dos EUA, Donald Trump, de que Washington teria obtido "controle majoritário" sobre mais de 65 bilhões de barris de reservas de petróleo venezuelanas, por meio de parceria com empresas privadas. Os detalhes do acordo ainda não foram divulgados publicamente.
Por que Paul Krugman chama o acordo de imperialismo?
O Nobel de Economia avalia que a operação se assemelha ao colonialismo extrativista do século 19, em que potências se apropriavam de recursos naturais de outros países. Para ele, não há justificativa democrática, ambiental ou de segurança que sustente o movimento, e o benefício para os EUA seria quase nulo.
O acordo vai baixar o preço da gasolina nos Estados Unidos?
Pelo cronograma apresentado, não no curto prazo. A recuperação da infraestrutura petrolífera venezuelana pode levar anos, e o aumento de produção capaz de influenciar preços só chegaria ao mercado no médio e longo prazo. O próprio governo americano marcou uma reunião com refinarias nesta semana para discutir alternativas de curto prazo.
O acordo afeta o Brasil?
Indiretamente, sim. Se a oferta global de petróleo aumentar por causa da produção venezuelana, o preço internacional da commodity tende a cair, beneficiando países importadores. Porém, o preço da gasolina no Brasil depende muito mais de tributos, câmbio e política da Petrobras do que da cotação internacional.
A Venezuela realmente tem 65 bilhões de barris de petróleo?
Sim, a Venezuela é o país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com volume estimado acima de 300 bilhões de barris em fontes do setor. Os 65 bilhões citados por Trump seriam uma parte dessas reservas que estaria no escopo do acordo.
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