A presença de militares em cargos do governo federal diminuiu desde o fim da gestão Jair Bolsonaro, em 2022, e o bolsonarismo pode seguir competitivo sem depender diretamente das Forças Armadas. Essa é a avaliação do cientista político João Roberto Martins Filho, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em entrevista à BBC News Brasil. Para o especialista, a votação expressiva de candidatos ligados ao movimento no primeiro turno indica que o grupo construiu força política própria.
O tema envolve duas mudanças: a redução da exposição política de integrantes das Forças Armadas e a consolidação de uma base eleitoral bolsonarista que não depende da participação de militares no governo. Martins Filho também avalia que a instituição deve preservar distância da política partidária, inclusive diante de um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL).
Por que os militares ganharam espaço no governo Bolsonaro?
Jair Bolsonaro chegou à Presidência em 2019 após ter passado para a reserva do Exército. Durante o mandato, militares ocuparam postos na administração federal e participaram de decisões de governo. O vice-presidente, Hamilton Mourão, também era general do Exército, e o general Eduardo Pazuello chefiou o Ministério da Saúde durante a pandemia de Covid-19.
A presença de fardados na administração não se limitou a esses nomes. Um levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU), citado na reportagem da BBC News Brasil, identificou 6.157 militares da ativa e da reserva em cargos durante aquela gestão. O número dimensiona a participação militar no governo, mas não significa que todos exercessem funções iguais ou tivessem o mesmo papel político.
A atuação de integrantes das Forças Armadas em cargos civis também não é, por si só, sinônimo de intervenção militar. A questão política está em como essa participação ocorre, em que escala e com que limites, especialmente quando a instituição passa a ser associada a disputas partidárias ou a decisões de governo.
O que mudou depois do fim do governo Bolsonaro?
Segundo Martins Filho, as Forças Armadas voltaram a uma posição de menor exposição política. Entre militares da ativa, opiniões políticas deixaram de ser expressas publicamente ou nas redes sociais, conforme o relato apresentado na entrevista. A avaliação do especialista é que essa mudança é positiva e tende a continuar.
A expressão “voltar aos quartéis” não deve ser entendida como se todos os militares tivessem deixado funções públicas ou como se as Forças Armadas tivessem desaparecido da vida institucional. A interpretação mais precisa, dentro do contexto da entrevista, é que a instituição reduziu sua visibilidade na política partidária e que seus integrantes da ativa passaram a se manifestar menos sobre disputas políticas.
Essa distinção importa porque a atuação profissional das Forças Armadas permanece necessária ao Estado, enquanto a participação em cargos civis e a manifestação política são temas diferentes. A presença de militares em uma função administrativa não equivale automaticamente à manifestação institucional das Forças Armadas como um todo.
Por que o bolsonarismo pode não precisar dos militares?
Na análise de Martins Filho, a força eleitoral do bolsonarismo se tornou suficiente para sustentar candidaturas e disputar o poder sem depender do apoio direto de integrantes das Forças Armadas. A votação de políticos ligados ao movimento no primeiro turno é, para o cientista político, um sinal de que o grupo acumulou uma base política própria.
Essa base pode se apoiar em fatores como a identificação de eleitores com lideranças, propostas e pautas do movimento. No entanto, a entrevista não apresenta dados que permitam medir separadamente o peso de cada elemento. O ponto central do especialista é que a mobilização eleitoral bolsonarista não precisa mais da mesma aproximação com os militares observada durante o governo de Bolsonaro.
O argumento também separa duas coisas que às vezes são tratadas como sinônimas: ter militares em cargos de governo e contar com apoio eleitoral. Um movimento político pode continuar forte nas urnas mesmo que a instituição militar esteja menos presente na administração e evite se associar publicamente a partidos ou candidatos.
O que explica a cautela das Forças Armadas?
Martins Filho avalia que os militares devem querer manter distância do governo depois da experiência durante a gestão Bolsonaro. A reportagem não atribui essa cautela a uma decisão formal específica das Forças Armadas; trata-se da leitura do especialista sobre os incentivos da instituição após um período de maior participação política.
Uma razão institucional para essa distância é a necessidade de preservar a imagem de uma força de Estado, e não de um grupo partidário. Quando a instituição é identificada com um governo, pode ficar mais exposta às críticas dirigidas à administração e às disputas entre diferentes campos políticos. Manter limites claros entre a atuação militar e a política cotidiana ajuda a evitar essa associação.
A Constituição atribui às Forças Armadas funções relacionadas à defesa do país e à garantia dos poderes constitucionais. Isso não transforma a instituição em árbitra de disputas eleitorais nem lhe concede um mandato próprio para substituir autoridades civis. A atuação deve ocorrer dentro das regras constitucionais e da hierarquia institucional do Estado.
O que essa mudança significa para o cidadão?
Para a população, a discussão tem efeitos sobre a transparência, a responsabilização e a previsibilidade da administração pública. Quando militares ocupam funções civis, é importante que as responsabilidades do cargo sejam claras e que decisões possam ser avaliadas pelos mesmos mecanismos de controle aplicáveis ao governo.
Também está em jogo a confiança nas instituições. A participação das Forças Armadas em disputas políticas pode intensificar a polarização e dificultar que a instituição seja percebida como parte permanente do Estado. Por outro lado, uma redução da exposição partidária não elimina a necessidade de fiscalização sobre gastos, nomeações e decisões públicas.
O diagnóstico de Martins Filho é uma avaliação especializada, não uma garantia sobre o comportamento futuro de todos os militares ou de qualquer próximo governo. A tendência dependerá de decisões políticas, regras institucionais e da conduta de autoridades civis e militares. A entrevista também não confirma que um eventual governo de Flávio Bolsonaro repetiria ou evitaria o modelo adotado por seu antecessor.
O bolsonarismo ainda pode contar com militares em um próximo governo?
É possível que militares ocupem funções civis em futuras administrações, mas isso não significa que as Forças Armadas, como instituição, apoiem um partido ou candidato. Martins Filho prevê que a instituição queira manter distância da política após a experiência do governo Bolsonaro; essa é uma avaliação, não uma decisão oficial anunciada.
Perguntas frequentes
Quantos militares ocuparam cargos no governo Bolsonaro?
Um levantamento do TCU apontou 6.157 militares da ativa e da reserva em cargos durante a gestão. O dado não indica que todos tinham atribuições ou posições políticas iguais.
O que o especialista quer dizer ao afirmar que o bolsonarismo não precisa mais dos militares?
Para João Roberto Martins Filho, a força eleitoral do movimento permite eleger candidatos sem depender da presença de militares em cargos de governo ou de apoio público das Forças Armadas.
As Forças Armadas deixaram de participar do governo?
Não é isso que a entrevista afirma. A avaliação é de que a instituição está menos exposta politicamente e de que militares da ativa passaram a expressar menos opiniões políticas em público.
Um eventual governo de Flávio Bolsonaro mudaria esse cenário?
Martins Filho considera que a tendência de afastamento pode continuar mesmo nesse cenário. A entrevista apresenta essa previsão como uma avaliação do especialista, não como uma confirmação sobre decisões futuras.
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