Economia

Brasil atinge 96,5% e Bolívia 102% do PIB em ranking global

Países sul-americanos aparecem no topo de indicador internacional de endividamento, superando economias desenvolvidas.

Brasil atinge 96,5% e Bolívia 102% do PIB em ranking global

O Brasil e a Bolívia passaram a integrar o ranking das 30 economias mais endividadas do planeta, segundo levantamento do Instituto de Finanças Internacionais (IIF) elaborado com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). A projeção divulgada e reproduzida pelo portal Abril.com.br coloca os dois países sul-americanos em uma faixa de endividamento público que, até pouco tempo atrás, era ocupada por economias em situação de estresse fiscal agudo.

Apesar de figurarem na mesma lista, Brasil e Bolívia vivem realidades bem diferentes. A Bolívia já deve mais do que o valor total de sua economia e atravessa um cenário de escassez de dólares, reservas internacionais reduzidas e dificuldade para financiar o governo. O Brasil tem mercado financeiro mais robusto, reservas internacionais elevadas e uma dívida emitida majoritariamente em moeda local, mas paga os juros mais altos da América Latina para manter esse endividamento de pé.

O que diz o levantamento do IIF

O estudo do IIF utiliza a métrica padrão adotada internacionalmente: a relação entre a dívida pública bruta do governo central e o Produto Interno Bruto (PIB). Pelo critério, um país é considerado altamente endividado quando essa proporção ultrapassa 60% — referência da própria metodologia do FMI para economias emergentes.

A projeção aponta que a dívida pública brasileira deve atingir 96,5% do PIB em 2026. Na Bolívia, o índice chega a 102% do PIB, ou seja, o país já deve mais do que produz em um ano. O Suriname completa o trio de latino-americanos entre as 30 economias mais endividadas do mundo.

Esses números não são estáticos. O IIF atualiza o ranking periodicamente conforme o FMI revisa as projeções de crescimento e de necessidade de financiamento dos países. Movimentos de alguns pontos percentuais para cima ou para baixo podem tirar ou colocar um país no grupo.

Por que o Brasil aparece nessa lista?

O endividamento público brasileiro não é novidade. O país convive com uma dívida acima de 60% do PIB há décadas e, em diferentes momentos, já figurou entre os mais endividados do mundo em termos proporcionais. O que chama a atenção no atual cenário é a combinação de três fatores:

  • Taxa de juros real elevada: a Selic, principal instrumento de política monetária do Banco Central, é a mais alta entre os grandes países emergentes, o que encarece a rolagem da dívida.
  • Crescimento econômico abaixo do potencial: quando o PIB cresce menos do que os juros da dívida, a relação dívida/PIB piora automaticamente.
  • Déficit fiscal persistente: o governo central gasta mais do que arrecada, recorrendo ao mercado para financiar a diferença.

A maior parte da dívida brasileira é emitida em reais e comprada por investidores locais, o que reduz o risco de calote em moeda estrangeira. Por outro lado, isso não elimina o risco fiscal: o governo precisa convencer o mercado, todos os meses, de que conseguirá pagar os juros sem comprometer serviços públicos essenciais.

E a Bolívia, por que entrou no clube?

A Bolívia historicamente teve baixo endividamento público, graças em parte às nacionalizações promovidas no início dos anos 2000 e à geração de receita com exportações de gás natural. Esse cenário começou a se deteriorar nos últimos anos, com a queda das reservas internacionais, a redução da produção de hidrocarbonetos e a dificuldade de acessar financiamento externo em volumes suficientes.

Com reservas em dólares mais baixas e maior dependência de crédito de organismos multilaterais e de parceiros como a China, o governo boliviano passou a emitir mais dívida interna e externa. O resultado é a ultrapassagem do simbólico 100% do PIB, acompanhada de sinais clássicos de estresse cambial e fiscal — exatamente o quadro descrito pela reportagem do portal Abril.com.br ao comparar os dois países.

Como fica a América Latina no ranking

Além de Brasil, Bolívia e Suriname, outras economias latino-americanas aparecem em faixas de endividamento próximas, embora fora do top 30 global. Argentina, Equador e alguns países caribenhos costumam figurar em posições mais críticas quando se considera a dívida externa em relação ao PIB ou ao serviço da dívida frente às exportações.

O detalhe é que a métrica do IIF usa a dívida total do governo central, e não apenas a dívida externa. Isso muda bastante o diagnóstico: países que devem muito em moeda local e para credores internos tendem a aparecer em posição pior do que aqueles que devem principalmente ao exterior — embora, na prática, ambos os casos representem riscos para a população.

O cenário global: quem lidera o ranking

O Japão ocupa a primeira posição, com dívida equivalente a 204,4% do PIB. Na sequência aparecem Singapura (171,9%) e Sudão (169,1%). O top 10 das economias mais endividadas do mundo, segundo o levantamento, ainda inclui:

  1. Japão — 204,4% do PIB
  2. Cingapura — 171,9% do PIB
  3. Sudão — 169,1% do PIB
  4. Bahrein
  5. Itália
  6. Grécia
  7. Senegal
  8. Maldivas
  9. Estados Unidos — 125,8% do PIB
  10. Ucrânia

Vale notar que o ranking mistura economias muito diferentes entre si. Japão, Itália e Estados Unidos são países ricos, com mercados de dívida profundos e capacidade de financiar seus déficits a custos baixos. Sudão, Senegal e Ucrânia enfrentam cenários de fragilidade maior, em alguns casos com ajuda internacional condicionada.

O que isso significa na prática para o cidadão brasileiro?

O endividamento público não é apenas um número macroeconômico. Ele tem efeitos concretos no dia a dia:

  • Orçamento público: parte significativa da arrecadação federal é comprometida com o pagamento de juros e amortizações, reduzindo o espaço para investimentos em saúde, educação, infraestrutura e segurança.
  • Custo do crédito: quando o governo paga juros altos para financiar sua dívida, essa taxa contamina o crédito bancário, o financiamento imobiliário e o custo do capital para empresas.
  • Risco-país: agências de classificação de risco monitoram a relação dívida/PIB; uma piora pode levar a rebaixamentos, que encarecem ainda mais o financiamento.
  • Câmbio e inflação: em momentos de desconfiança fiscal, o real tende a se desvalorizar e a inflação pode acelerar, corroendo o poder de compra.

Em outras palavras, o tamanho da dívida e a forma como ela é financiada afetam diretamente o preço do crédito, o valor do salário real e a capacidade do Estado de responder a crises.

Como o Brasil tenta controlar o endividamento

Nos últimos anos, o Brasil adotou um novo arcabouço fiscal que substituiu o antigo teto de gastos. A regra estabelece metas de resultado primário — a diferença entre receitas e despesas, sem contar os juros — e prevê gatilhos de contenção quando essas metas não são cumpridas. A ideia é sinalizar ao mercado que o governo tem um caminho plausível para estabilizar a dívida ao longo do tempo.

Paralelamente, o Banco Central conduz a política de juros buscando conciliar controle da inflação e condições de financiamento da dívida. Movimentos de corte ou de alta da Selic são calibrados considerando, entre outros fatores, o impacto sobre o endividamento público.

Para a dívida parar de crescer em proporção ao PIB, é preciso que o país cresça mais, que os juros reais caiam de forma estrutural ou que o superávit primário aumente. Normalmente, esses três movimentos precisam caminhar juntos — algo historicamente difícil em economias com volatilidade política e fiscal.

O que vem a seguir?

Os próximos capítulos dessa história dependerão de variáveis como o ritmo de crescimento global, o preço das commodities (especialmente importante para a Bolívia), o comportamento das taxas de juros nos Estados Unidos e na zona do euro, e a capacidade dos governos da região de cumprir metas fiscais.

Para o Brasil, o teste de fogo será a sustentabilidade do novo arcabouço fiscal em meio a pressões por mais gastos. Para a Bolívia, o desafio é reconstruir reservas e recuperar a confiança de credores externos sem precisar recorrer a programas emergenciais do FMI. Os dados do IIF e do FMI continuarão sendo termômetro dessa trajetória.

Perguntas frequentes

O que é a relação dívida/PIB?

É a divisão entre o total da dívida pública do governo central e o Produto Interno Bruto do país em um ano. Quanto maior o resultado, maior o peso da dívida na economia. Acima de 60% já é considerado elevado para países emergentes pelos critérios do FMI.

Por que o Japão tem dívida tão alta e não quebra?

O Japão emite a maior parte de sua dívida em iene, moeda que ele mesmo controla, e o mercado interno absorve boa parte dos títulos. Além disso, a economia japonesa é rica e diversificada, o que sustenta a confiança dos credores mesmo com dívida superior a 200% do PIB.

Estar entre as 30 economias mais endividadas é motivo de alarme?

Depende. O ranking inclui economias estáveis, como Japão e Itália, e países em dificuldade, como Sudão e Ucrânia. O importante não é apenas a posição na lista, mas a composição da dívida (interna ou externa, em moeda local ou estrangeira), o custo de financiamento e a capacidade de crescimento.

Quanto da arrecadação do Brasil vai para pagar juros da dívida?

Historicamente, o pagamento de juros da dívida pública é uma das maiores despesas do orçamento federal, junto com previdência e pessoal. O percentual varia de ano para ano conforme a Selic e o estoque da dívida, e é um dos principais pontos de tensão nas discussões sobre reforma fiscal no país.

Como o cidadão comum pode acompanhar esse indicador?

Os dados de dívida pública são divulgados mensalmente pelo Tesouro Nacional, e as projeções internacionais, pelo FMI, Banco Mundial e IIF. Acompanhar esses relatórios é a forma mais direta de entender se o endividamento está melhorando ou piorando.

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Yuri Augusto
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Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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