China rebate Rubio e defende investimentos em Chancay

Pequim contesta secretário de Estado americano e classifica porto no Peru como vital para integração regional.

China rebate Rubio e defende investimentos em Chancay

China rebate Rubio e defende investimentos no Peru: entenda a disputa pelo porto de Chancay

A China reagiu nesta quarta-feira de forma direta às críticas do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e classificou como "transparentes" e "em conformidade com a lei" os investimentos chineses no Peru, incluindo o megaprojeto portuário de Chancay, operado pela transportadora marítima estatal Cosco. A resposta foi publicada nas redes sociais pela embaixada chinesa em Lima horas depois de Rubio assinar um artigo de opinião no jornal peruano El Comercio no qual acusava projetos apoiados pelo Partido Comunista Chinês de "ignorarem os quadros jurídicos do Peru" e ameaçarem "a transparência e a segurança dos dados".

O episódio marca mais um capítulo da crescente disputa sino-americana pela influência na América Latina e tem repercussão direta para o Brasil, que também é destino de grandes investimentos chineses em infraestrutura e lida com pressões semelhantes de Washington sobre temas como 5G, semicondutores e contratos estratégicos.

Qual é o ponto central da discórdia?

O cerne da questão é uma ação judicial movida pela Cosco contra o Estado peruano. A empresa, que construiu e opera o porto de Chancay com um aporte de 1,3 bilhão de dólares (cerca de 1,1 bilhão de euros), pretende ficar excluída da supervisão e do controle de tarifas, argumentando que se trata de um terminal privado e não de uma concessão pública. A posição é contestada pelo governo peruano e por concorrentes, que defendem que a regulação estatal se aplica por se tratar de um ativo de interesse estratégico nacional.

Para Rubio, esse tipo de demanda representa uma tentativa de blindar ativos chineses de qualquer escrutínio local. Em seu texto, o chefe da diplomacia americana afirmou que "os projetos apoiados pelo Partido Comunista Chinês ignoram os quadros jurídicos do Peru e ameaçam a transparência e a segurança dos dados".

O que disse a China em resposta?

A embaixada da China em Lima publicou em suas redes sociais uma nota oficial em que sustenta que a carteira de investimentos chineses no Peru, estimada em 30 bilhões de dólares (aproximadamente 25,7 bilhões de euros), "traz oportunidades de desenvolvimento, emprego, receitas fiscais, excedente comercial e reservas internacionais, sem gerar um único cêntimo de dívida" — um argumento pensado para rebater a narrativa americana de endividamento predatório.

A diplomacia chinesa também aproveitou a resposta para inverter o sinal da acusação e pedir que as vendas recentes — em referência indireta a contratos militares americanos — sejam submetidas ao mesmo padrão de transparência exigido de Pequim. A embaixada argumentou ainda que "os investimentos e as operações de todos os países no Peru devem estar sob a jurisdição do Estado peruano", sinalizando que a China não pretende abrir mão do tema da soberania regulatória.

Por que o porto de Chancay é tão estratégico?

Inaugurado em novembro de 2024, o porto de Chancay é considerado um divisor de águas para a logística sul-americana. Localizado cerca de 80 quilômetros ao norte de Lima, ele reduz drasticamente o tempo de navegação entre a Ásia e a costa oeste da América do Sul, posicionando o Peru como um hub de redistribuição de cargas para países vizinhos, incluindo o Brasil.

Para a China, o terminal funciona como uma porta de entrada direta na região andina e um instrumento de projeção do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative). Para os Estados Unidos, é visto como uma cabeça de ponte militar e economicamente sensível, em um país historicamente alinhado com Washington. A tensão em torno da regulação tarifária tem, portanto, leitura geopolítica tanto quanto comercial.

Qual o contexto da disputa entre EUA e China na América Latina?

A troca de acusações se insere em uma rivalidade mais ampla. Desde o início da segunda administração de Donald Trump, Washington intensificou a pressão sobre governos latino-americanos para que restringissem a presença chinesa em infraestruturas críticas, setores de tecnologia e contratos de energia. Em vários países, incluindo o Brasil, diplomatas americanos têm alertado publicamente sobre riscos de segurança nacional vinculados a equipamentos e empresas chinesas.

A resposta de Pequim segue um padrão conhecido: defender a "transparência" e os "ganhos mútuos" de seus investimentos, rebater críticas com o argumento da ingerência externa e propor que outros atores — leia-se os Estados Unidos — sejam submetidos ao mesmo escrutínio. O Peru, governado pela presidente Dina Boluarte, até o momento tem buscado manter uma posição de equilíbrio, sem romper com nenhum dos dois lados.

Como o caso afeta o leitor brasileiro?

Embora o litígio seja entre Cosco e o Estado peruano, seus desdobramentos interessam diretamente ao Brasil por três motivos principais:

  • Comércio exterior: parte da carga que chega ou sai pelo porto de Chancay tem como destino ou origem portos brasileiros, especialmente no Arco Norte. A regulação tarifária pode alterar o custo logístico de exportações e importações.
  • Investimentos chineses no Brasil: empresas estatais chinesas operam em setores sensíveis da economia brasileira, como energia, mineração e telecomunicações. Precedentes regulatórios firmados em Lima podem influenciar decisões do TCU, da ANATEL e do BNDES.
  • Pressão geopolítica: o Brasil é o maior parceiro comercial da China na região e, ao mesmo tempo, mantém diálogo estratégico com Washington. O desfecho do caso Chancay tende a ser observado de perto por Brasília como termômetro das relações sino-americanas no continente.

Quais são os próximos passos esperados?

A ação judicial da Cosco segue tramitando no Poder Judiciário peruano e não tem prazo definido para uma decisão final. Enquanto isso, espera-se que o tema permaneça na agenda diplomática bilateral, com possíveis novos pronunciamentos do Itamaraty e de outros governos sul-americanos. Analistas ouvidos por veículos internacionais apontam que o caso pode se tornar um teste para a autonomia regulatória de países latino-americanos frente a investimentos de grandes potências — um debate que está longe de se esgotar.

Perguntas frequentes

O que é o porto de Chancay?
É um megaporto localizado na costa central do Peru, construído com investimento de 1,3 bilhão de dólares da chinesa Cosco. Foi inaugurado em 2024 e é considerado estratégico para o comércio entre a Ásia e a América do Sul.

Por que a Cosco quer ser isenta do controle de tarifas?
A empresa argumenta que o terminal é de caráter privado, e não uma concessão pública, e que por isso não estaria sujeita à regulação tarifária do Estado peruano. O governo peruano contesta essa interpretação.

O que Marco Rubio disse sobre a China no Peru?
Em artigo publicado no jornal El Comercio, o secretário de Estado dos EUA afirmou que projetos apoiados pelo Partido Comunista Chinês "ignoram os quadros jurídicos do Peru" e ameaçam a transparência e a segurança dos dados.

Como a China respondeu às críticas dos EUA?
A embaixada chinesa em Lima classificou os investimentos como transparentes, afirmou que respeitam a legislação local e defendeu que outras potências, em referência aos EUA, também sejam submetidas ao mesmo padrão de transparência.

O Brasil está envolvido nessa disputa?
Não diretamente, mas o país é afetado de forma indireta, pois empresas chinesas têm presença crescente em setores estratégicos brasileiros e o caso pode servir de precedente regulatório para futuras negociações.

Segundo o portal Observador.pt, a controa China-EUA pelo porto de Chancay promete novos desdobramentos nas próximas semanas, com possíveis repercussões em fóruns multilaterais e na próxima cúpula da APEC, da qual o Peru é sede.

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Yuri Augusto
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Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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