Economia

Fusões e aquisições no Brasil recuam 35% no 1º semestre

Ambiente de juros altos e instabilidade política esfriam o apetite de compradores estrangeiros e nacionais no mercado corporativo.

Fusões e aquisições no Brasil recuam 35% no 1º semestre
>A combinação de juros elevados, incertezas no comércio internacional e a proximidade do calendário eleitoral está tornando o mercado brasileiro de fusões e aquisições (M&A) mais seletivo no primeiro semestre de 2026. Segundo reportagem do portal Terra.com.br, o número de transações anunciadas recuou expressivamente, mas o segmento intermediário de valor — o chamado middle market — manteve participação relevante no fluxo de negócios, evidenciando que a cautela não significa paralisia.

Quanto caiu o número de fusões e aquisições no Brasil em 2026?

A pesquisa trimestral de M&A da KPMG registrou 610 transações anunciadas no Brasil no primeiro semestre de 2026, o que representa uma queda de 35% em relação ao mesmo período do ano anterior. O volume é um dos menores dos últimos ciclos e reflete o comportamento mais conservador de compradores e vendedores diante de um cenário macrofinanceiro adverso.

De acordo com os especialistas ouvidos pelo mercado, esse recuo não é resultado apenas do ciclo econômico. Há também um componente de maturidade: investidores passaram a dedicar mais tempo à análise dos ativos, à estruturação financeira das operações e ao mapeamento dos riscos de execução. Em outras palavras, houve redução no número de operações, mas elevação no nível de exigência sobre cada negócio avaliado.

O que explica o tombo nas operações de M&A?

Três fatores principais são apontados como motores da retração:

  • Juros altos: a taxa Selic em patamar elevado encarece o financiamento de aquisições, especialmente nas operações que dependem de dívida bancária ou emissão de CRA e debêntures para viabilizar a compra.
  • Incertezas no comércio internacional: tensões geopolíticas e risco de fragmentação de cadeias globais reduzem a previsibilidade de receitas em setores expostos à exportação ou a insumos importados.
  • Calendário eleitoral: a proximidade das eleições gera dúvida sobre a política econômica, fiscal e regulatória do próximo governo, levando fundos, empresas e famílias controladoras a adiarem decisões de grande porte.

Esse tripé de incertezas já era esperado por economistas, mas seu impacto no M&A costuma aparecer com defasagem, porque os processos de venda de uma empresa levam meses para amadurecer. Assim, a queda verificada no primeiro semestre de 2026 reflete decisões tomadas ainda em 2025, quando os sinais macro começaram a se deteriorar.

Por que o middle market continua relevante mesmo na crise?

Das 610 transações contabilizadas pela KPMG no semestre, 267 divulgaram seus valores. Entre essas, 100 operações ficaram na faixa entre R$ 51 milhões e R$ 500 milhões, o equivalente a cerca de 37% dos negócios com valor conhecido. A faixa é frequentemente associada ao middle market, segmento formado por empresas de médio porte, em geral com faturamento anual entre R$ 100 milhões e R$ 1 bilhão.

A resiliência dessa faixa de valor tem motivos estruturais. Conforme relatado pelo Terra.com.br, processos de sucessão familiar, necessidade de profissionalização da gestão, busca por capital de expansão e diversificação patrimonial são alguns dos fatores que continuam empurrando empresários para a mesa de negociação, independentemente do humor do mercado.

"O mercado de M&A é cíclico e responde às condições de juros, crédito e confiança. Ao mesmo tempo, existe um movimento estrutural de empresários que avaliam alternativas para obter liquidez, diversificar o patrimônio ou preparar a empresa para um novo ciclo de crescimento. Como os compradores se tornaram mais rigorosos, as operações exigem análises mais profundas e maior planejamento", afirma Pedro Seidenthal, sócio da JK Capital.

Quem está comprando e vendendo empresas no Brasil hoje?

Mesmo em cenário adverso, três perfis seguem ativos no mercado:

  1. Empresas familiares em transição geracional: sem sucessor identificado no grupo, fundadores vendem para acelerar a profissionalização ou realizar patrimônio.
  2. Grandes corporações buscando consolidação setorial: grupos estratégicos aproveitam a janela para comprar concorrentes menores a valuations mais atrativos do que em ciclos anteriores.
  3. Fundos de private equity com dry powder: gestoras com capital já captado e prazo para investir pressionam a tese de retorno, fechando operações mesmo em ambiente de juros altos.

O que diz o Radar do Cade sobre o volume de atos de concentração?

Os atos de concentração submetidos ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) oferecem uma fotografia complementar do mercado. O Radar do Cade, levantamento elaborado pela JK Capital a partir dos registros públicos da autarquia, contabilizou 486 protocolos entre janeiro e julho de 2026, contra 454 no mesmo intervalo de 2025 — crescimento de aproximadamente 7%.

A aparente contradição entre a queda nos anúncios de M&A e o aumento dos protocolos no Cade tem explicação metodológica: a pesquisa da KPMG considera transações divulgadas ao mercado, incluindo operações menores ou sigilosas que muitas vezes nem chegam ao conhecimento público, enquanto o Radar do Cade reflete exclusivamente os atos formalmente submetidos ao órgão antitruste. Operações abaixo dos patamares de notificação obrigatória não precisam ser comunicadas ao regulador, o que ajuda a entender a diferença.

Como a alta da Selic muda o cálculo de uma fusão ou aquisição?

Para entender o impacto prático, vale detalhar o que muda em uma operação típica:

  • Custo de capital: com a Selic elevada, o Custo Médio Ponderado de Capital (WACC) das companhias sobe, o que reduz o valor presente dos fluxos de caixa futuros e, consequentemente, o preço máximo aceitável pelo comprador.
  • Financiamento: linhas de aquisição alavancada ficam mais caras e mais escassas, exigindo maior aporte de equity do próprio comprador.
  • Múltiplos de EBITDA: em ciclos de juros altos, é comum observar compressão de múltiplos, especialmente em empresas de crescimento lento ou com margens apertadas.
  • Cláusulas contratuais: earn-outs, ajustes de preço atrelados a metas e mecanismos de retenção de vendedores ganham espaço como forma de repartir o risco entre as partes.

O que isso significa para o empresário brasileiro?

Para quem pensa em vender a empresa, o cenário atual exige mais preparo. Processos mal documentados, com governança frágil, demonstrações financeiras não auditadas ou concentração excessiva de clientes tendem a ser preteridos pelos compradores qualificados. Antes de bater à porta de fundos e grupos estratégicos, vale:

  • Organizar as demonstrações financeiras com auditoria independente;
  • Formalizar a estrutura societária e os contratos-chave (fornecedores, clientes, executivos);
  • Mapear riscos trabalhistas, fiscais e regulatórios;
  • Definir claramente o motivo da venda e o uso do recurso.

Já para quem busca comprar, o momento pode ser favorável: valuations mais negociados e menos competidores agressivos permitem selecionar ativos com maior cuidado e, em muitos casos, fechar a preços menores do que os praticados em 2021 e 2022.

Quais os próximos passos esperados para o segundo semestre?

Analistas do setor costumam apontar três gatilhos que podem destravar o mercado:

  1. Início do ciclo de queda da Selic, quando as condições financeiras começarem a afrouxar;
  2. Redução da incerteza eleitoral, com definição dos principais candidatos e de seus programas econômicos;
  3. Estabilização do comércio internacional, com redução das tensões entre grandes blocos econômicos.

Enquanto esses gatilhos não são acionados, o cenário mais provável é de continuidade da seletividade, com operações fechadas de forma mais lenta, mais negociada e, em geral, envolvendo empresas melhor preparadas. Como resumiu Pedro Seidenthal, em fala reproduzida pelo Terra.com.br, o mercado segue vivo — apenas mais criterioso.

Perguntas frequentes

O que é o middle market em fusões e aquisições?

É a faixa de empresas de médio porte, geralmente com faturamento entre R$ 100 milhões e R$ 1 bilhão e valor de transação entre R$ 50 milhões e R$ 500 milhões, considerada o "coração" do mercado de M&A brasileiro pela frequência e diversidade de operações.

Por que os juros altos atrapalham as fusões e aquisições?

Porque encarecem o financiamento das operações, elevam o custo de capital e comprimem os múltiplos pagos pelos compradores, tornando muitos negócios economicamente inviáveis no curto prazo.

O que é o Radar do Cade?

É um levantamento elaborado pela JK Capital com base nos atos de concentração protocolados no Conselho Administrativo de Defesa Econômica, que permite acompanhar o volume de fusões e aquisições submetidas ao órgão antitruste.

Vale a pena vender a empresa em 2026?

Depende do objetivo do vendedor. Para processos de sucessão familiar ou necessidade de liquidez imediata, a venda pode fazer sentido mesmo em ciclo de valuations mais baixos. Para quem pode esperar, vale avaliar a janela do segundo semestre de 2026 ou o início de 2027, quando o cenário macro pode estar mais favorável.

Como o Cade avalia uma fusão ou aquisição?

O órgão analisa se a operação gera concentração excessiva em determinado mercado, podendo aprová-la livremente, aprová-la com restrições (como a venda de ativos) ou reprová-la quando identifica riscos relevantes à concorrência.

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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