O mercado brasileiro de fusões e aquisições (M&A) entrou em 2026 com ritmo mais lento, marcado por um processo criterioso de seleção de ativos em meio a juros elevados, incertezas no comércio internacional e a proximidade do calendário eleitoral. Segundo o portal Terra.com.br, o número de operações anunciadas no primeiro semestre recuou 35% na comparação com o mesmo período do ano anterior, mas os negócios de valor intermediário mantiveram presença relevante no cenário nacional.
O que os números revelam sobre o semestre
A pesquisa trimestral de fusões e aquisições da KPMG registrou 610 transações anunciadas no Brasil entre janeiro e junho de 2026, queda expressiva frente ao volume observado em 2025. Das operações mapeadas, 267 tiveram o valor financeiro divulgado, e 100 delas ficaram na faixa entre R$ 51 milhões e R$ 500 milhões — o equivalente a aproximadamente 37% dos negócios com preço conhecido.
Esse intervalo é tradicionalmente associado ao chamado middle market, segmento que reúne empresas de médio porte com forte presença em suas regiões ou setores. Em ciclos de aperto monetário, o middle market costuma ganhar relevância porque tende a depender menos de grandes fundos internacionais e mais de investidores estratégicos, fundos regionais e grupos industriais em busca de expansão.
Por que o middle market resiste mesmo em ambiente adverso
Apesar da retração no volume total de anúncios, os negócios intermediários seguem ativos por motivos que vão além da conjuntura macroeconômica. Entre os fatores que continuam puxando operações estão:
- Processos de sucessão familiar: empresas que precisam planejar a transição de controle entre gerações ou entre sócios;
- Profissionalização da gestão: incorporação de executivos de mercado, governança mais robusta e preparação para novos patamares de crescimento;
- Necessidade de capital: companhias que precisam de aporte para expandir, investir em tecnologia ou reduzir endividamento;
- Diversificação patrimonial: empreendedores que optam por vender participação para rebalancear riscos pessoais.
Esse movimento estrutural ajuda a explicar por que, mesmo quando o investidor geral adota postura defensiva, há um piso de atividade no segmento.
Mais rigor, menos precipitação nas negociações
O cenário atual não paralisou o mercado de M&A, mas mudou o ritmo das negociações. Compradores e vendedores passaram a dedicar mais tempo à análise dos ativos, à estruturação financeira das operações e ao mapeamento de riscos de execução — itens que costumam ser decisivos em operações de middle market, em que a diligência prévia tem peso proporcionalmente maior.
"O mercado de M&A é cíclico e responde às condições de juros, crédito e confiança. Ao mesmo tempo, existe um movimento estrutural de empresários que avaliam alternativas para obter liquidez, diversificar o patrimônio ou preparar a empresa para um novo ciclo de crescimento. Como os compradores se tornaram mais rigorosos, as operações exigem análises mais profundas e maior planejamento", afirma Pedro Seidenthal, sócio da JK Capital.
A fala resume o que se observa na ponta: a queda no número de transações não significa desinteresse, e sim uma mudança no perfil da demanda por ativos. Selecionar bem passou a ser tão importante quanto fechar rápido.
O que diz o Radar do Cade
Uma segunda leitura do mesmo mercado vem dos atos de concentração submetidos ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O Radar do Cade, levantamento da JK Capital construído a partir dos registros públicos da autarquia, contabilizou 486 protocolos entre janeiro e julho de 2026, ante 454 no mesmo intervalo de 2025 — crescimento de aproximadamente 7%.
A análise comparativa sugere que, mesmo com menos anúncios públicos, o interesse regulado em operações societárias segue aquecido. Negócios que não chegam ao radar do Cade podem ser dispensados da análise por envolverem valores abaixo dos patamares de notificação obrigatória ou por se enquadrarem em critérios simplificados — o que abre espaço para uma camada adicional de atividade que não aparece nas estatísticas divulgadas.
O que está por trás da seletividade dos investidores
Três vetores principais ajudam a entender o ambiente mais cauteloso observado em 2026:
1. Política monetária e custo de capital
Com a taxa básica de juros (Selic) em patamar elevado, o custo de financiar uma aquisição sobe, o alongamento de prazos se torna mais complexo e a barreira de entrada para compradores alavancados se reduz. Em resposta, operações passaram a privilegiar estruturas com mais capital próprio e menos dívida.
2. Incerteza no comércio internacional
Oscilações nas regras de comércio global, novas tarifas e tensões geopolíticas tendem a reduzir o apetite por ativos expostos a cadeias internacionais. Empresas dependentes de insumos ou clientes no exterior passaram a ser avaliadas com mais cautela por potenciais compradores.
3. Calendário eleitoral
Eleições costumam provocar espera nas decisões de investimento até que o novo cenário fiscal e regulatório se torne mais claro. Para fundos, holdings e grupos estrangeiros, esse hiato de previsibilidade costuma se traduzir em adiamento de fechamentos e em exigência maior de garantias contratuais.
O que isso significa na prática para empresas e investidores
Para quem conduz ou avalia um processo de M&A no Brasil, o momento exige ajustes operacionais. Listamos alguns pontos a considerar:
- Preparação documental antecipada: histórico financeiro, governança, contratos-chave e passivos trabalhistas e tributários devem estar organizados antes de qualquer contato formal;
- Cenários de valuation realistas: múltiplos praticados em anos anteriores dificilmente se sustentam em 2026; revisar premissas com assessores financeiros é a melhor forma de evitar frustrações;
- Mapeamento de riscos regulatórios: mesmo negócios que não precisam de aprovação do Cade podem enfrentar exigência de informações complementares, o que alonga prazos;
- Plano de sucessão estruturado: para empresas familiares, formalizar protocolos de transição reduz ruído na negociação e amplia o universo de interessados.
Para quem pretende comprar, o cenário atual também abre janelas. A redução na concorrência por ativos e a maior disposição de vendedores para negociar podem representar oportunidades para companhias que fizeram a lição de casa e estão prontas para fechar.
Perguntas frequentes
Por que o mercado de M&A no Brasil caiu 35% no primeiro semestre de 2026?
A retração está associada à combinação de juros elevados, incertezas no comércio internacional e proximidade das eleições, fatores que levaram investidores a adiar fechamentos e a adotar postura mais seletiva na escolha de ativos.
O que é o middle market em fusões e aquisições?
É o segmento de empresas com valor de transação geralmente entre R$ 51 milhões e R$ 500 milhões, conforme referência da pesquisa da KPMG. Costuma reunir companhias de médio porte com presença relevante em seus setores ou regiões.
O que é o Radar do Cade?
É um levantamento elaborado pela JK Capital a partir dos registros públicos do Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Ele contabiliza os atos de concentração protocolados no órgão antitruste, oferecendo uma visão complementar sobre o ritmo de operações no país.
Empresas familiares continuam conseguindo vender seus negócios?
Sim. Processos de sucessão estão entre os principais motivos que levam empresas familiares a buscar operações de M&A, mesmo em períodos mais cautelosos. O middle market costuma ser o destino natural dessas transações.
Vale a pena tentar vender uma empresa em 2026?
Especialistas recomendam avaliar caso a caso, mas a queda na concorrência por ativos e a maior disposição de vendedores para negociar podem criar boas oportunidades para empresas bem preparadas. A recomendação é organizar documentação, revisar valuation e contar com assessores especializados antes de iniciar o processo.
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