Leilão de transmissão de 2027 terá R$ 12,9 bi e baterias

Prazo de conclusão das obras vai até 2031; sistemas de armazenamento visam garantir confiabilidade da matriz diante da crescente demanda.

Leilão de transmissão de 2027 terá R$ 12,9 bi e baterias

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou nesta terça-feira (8) o texto-base da consulta pública do primeiro leilão de transmissão de energia previsto para 2027, com estimativa de R$ 12,9 bilhões em investimentos e potencial de geração de 29.540 empregos diretos e indiretos em toda a cadeia produtiva. A proposta, segundo o portal InfoMoney, está organizada em 12 lotes — incluindo sublotes independentes para os lotes 6 e 7 — e contempla cerca de 3.245 quilômetros de novas linhas de transmissão e 1.386 megavolt-ampere (MVA) de capacidade de transformação.

O edital marca um capítulo relevante para o setor elétrico brasileiro por incluir o primeiro sistema de armazenamento por baterias integrado à rede de transmissão do país e por avançar na estruturação da interligação elétrica entre o Brasil e a Bolívia. A reportagem a seguir detalha o que está em jogo, os prazos do processo e o impacto esperado para consumidores, investidores e regiões atendidas.

O que está previsto no leilão de transmissão de 2027

O leilão reúne empreendimentos de diferentes portes e perfis, distribuídos em 12 lotes. Segundo a Aneel, o conjunto contempla:

  • 3.245 km de novas linhas de transmissão;
  • 1.386 MVA de capacidade de transformação em novas subestações ou ampliações;
  • 12 lotes, com sublotes independentes nos lotes 6 e 7;
  • Prazo de concessão de 30 anos, regra geral aplicada aos contratos de transmissão no Brasil.

Os contratos de transmissão seguem o modelo de Receita Anual Permitida (RAP), no qual o vencedor do leilão oferece o menor valor de receita anual para explorar a infraestrutura, sendo remunerado pelo uso do sistema ao longo de todo o período de concessão.

Baterias entram pela primeira vez na transmissão brasileira

O lote 5 é o que mais chama a atenção do mercado. Nele está prevista a implantação do primeiro sistema de armazenamento de energia por baterias (BESS, na sigla em inglês) conectado à rede de transmissão do país, destinado ao atendimento dos municípios de Cruzeiro do Sul e Feijó, no Acre.

O prazo de concessão proposto para esse lote é de 18 anos, menor do que os 30 anos aplicados aos demais lotes. A Aneel explica que a redução considera o ciclo de vida dos equipamentos e a evolução tecnológica associada às baterias, em linha com práticas internacionais já adotadas em sistemas elétricos da Austrália, Estados Unidos e Reino Unido.

A inclusão das baterias no leilão é um divisor de águas: até hoje, os sistemas de armazenamento estavam restritos à geração e à distribuição. Levar o BESS para a transmissão abre caminho para regulação complementar, novos modelos de negócio e maior segurança energética em regiões isoladas.

A escolha do Acre não é casual. O estado abriga parte do Sistema Interligado Nacional (SIN) por meio do chamado linhão de Tucuruí, mas ainda possui localidades atendidas por sistemas isolados, com geração predominantemente térmica a diesel. O uso de baterias em pontos estratégicos da rede pode reduzir o despacho térmico, melhorar a qualidade do fornecimento e diminuir os custos de geração local — que historicamente pressionam as tarifas das regiões mais remotas.

Por que o Acre foi escolhido para o projeto-piloto

Cruzeiro do Sul é a segunda maior cidade do Acre e fica distante dos grandes centros de carga do país. A logística de combustível para termelétricas locais e a dificuldade de expansão da transmissão convencional fazem da região candidata natural a soluções híbridas — geração renovável, armazenamento e gestão inteligente da demanda. A experiência adquirida no lote 5 deve servir de referência para outros projetos futuros.

Interligação Brasil-Bolívia ainda depende de acordo internacional

O lote 11 trata das instalações associadas à interligação elétrica entre Brasil e Bolívia, um projeto discutido há anos entre os dois países. A inclusão definitiva desse lote no leilão depende, no entanto, do cumprimento de "requisitos institucionais" relacionados ao acordo internacional, segundo a Aneel.

A interligação é vista como estratégica para ampliar o intercâmbio de energia na fronteira e para abrir uma nova alternativa de suprimento ao Sistema Interligado Nacional, especialmente em períodos de seca no Sudeste e no Centro-Oeste. A energia da Bolívia já chegou ao Brasil em décadas anteriores por meio de contratos de Gás Natural Liquefeito (GNL) e de suprimento pontual, mas uma linha de transmissão dedicada marcaria uma nova fase da cooperação energética bilateral.

Como o processo vai funcionar até a realização do leilão

O caminho regulatório até a publicação do edital definitivo e a realização do leilão tem etapas bem definidas:

  1. Consulta pública (10 de setembro a 26 de outubro de 2026): período em que agentes do setor, investidores, academia e sociedade podem enviar contribuições à minuta do edital.
  2. Análise das contribuições: a área técnica da Aneel avalia os comentários recebidos e ajusta o texto.
  3. Aprovação da minuta final do edital e encaminhamento ao Tribunal de Contas da União (TCU).
  4. Apresentação dos valores das RAPs (Receitas Anuais Permitidas), na mesma etapa de aprovação do edital para envio ao TCU.
  5. Leilão na B3, em data a ser definida após a aprovação do TCU, previsto para 2027.

O TCU tem papel relevante nesse tipo de contrato. Cabe ao tribunal avaliar a legalidade do edital, a adequação dos estudos de viabilidade e os limites de remuneração propostos, em um processo que costuma levar algumas semanas após o envio da minuta.

O impacto econômico esperado

Os R$ 12,9 bilhões em investimentos estimados pela Aneel representam um volume relevante para o setor. Em média, cada leilão de transmissão realizado nos últimos anos mobilizou entre R$ 5 bilhões e R$ 18 bilhões, dependendo do número de lotes e do porte dos empreendimentos. O resultado é fruto direto do programa de licitações da transmissão, retomado de forma mais intensa a partir de 2019 e considerado essencial para a modernização do SIN.

A previsão de 29.540 empregos ao longo da cadeia produtiva inclui postos de trabalho diretos na construção civil, montagem eletromecânica e comissionamento das linhas, além de vagas indiretas em fornecedores de equipamentos, serviços de engenharia, logística e consultoria. Estados das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste costumam ser os maiores beneficiários, pois concentram boa parte das novas linhas previstas nos editais.

Para o consumidor, o que muda?

O impacto dos leilões de transmissão na conta de luz é indireto, mas real. As novas instalações são remuneradas por meio da Tarifas de Uso do Sistema de Transmissão (TUST), embutidas no custo total de energia cobrado pelas distribuidoras. Em outras palavras, quanto mais eficiente e bem planejada for a expansão da rede, menor tende a ser a pressão sobre a tarifa no médio e no longo prazo.

No caso específico do Acre, a expectativa é de que o sistema de armazenamento reduza a necessidade de despacho térmico a óleo diesel nas regiões atendidas, o que também tem efeito sobre os subsídios da Conta de Consumo de Combustíveis Fosseis (CCC), encargo pago por todos os consumidores brasileiros para bancar a geração em sistemas isolados.

Próximos passos e o que acompanhar

Com a consulta pública aberta, três pontos merecem atenção do investidor e do leitor interessado no setor elétrico:

  • Definição dos valores das RAPs — quanto menor a RAP teto fixada pela Aneel, maior a disputa por desconto entre os proponentes, e maior o retorno potencial para o consumidor;
  • Decisão sobre a interligação com a Bolívia — a inclusão ou não do lote 11 sinaliza o ritmo da integração energética sul-americana;
  • Resultado do leilão — a participação de empresas estatais (como Eletrobras, Chesf, Furnas) e de fundos de infraestrutura privados indica o apetite do mercado pelo risco regulatório do setor.

Perguntas frequentes sobre o leilão de transmissão de 2027

O que é um leilão de transmissão de energia?

É uma concorrência pública organizada pela Aneel na qual empresas apresentam propostas para construir, operar e manter linhas de transmissão e subestações. Vence quem oferecer a menor Receita Anual Permitida (RAP) para executar a obra dentro do prazo definido.

Por que as baterias estão entrando na transmissão agora?

O custo das baterias de íon-lítio caiu de forma expressiva na última década, e a Aneel está concluindo a regulamentação específica para o armazenamento em sistemas de transmissão e distribuição. A inclusão no lote 5 funciona como projeto-piloto regulatório.

Quando o leilão será realizado?

O edital final ainda depende da conclusão da consulta pública, da aprovação pelo TCU e da definição da data pela Aneel. A expectativa é de que ocorra em 2027, conforme a nomenclatura oficial do certame.

Onde ficam as novas linhas de transmissão?

O edital prevê aproximadamente 3.245 km de novas linhas distribuídas pelo país, com destaque para os empreendimentos no Acre (lote 5, com baterias) e nas instalações associadas à interligação com a Bolívia (lote 11), cuja inclusão definitiva depende de entendimentos diplomáticos.

Como o leilão afeta a conta de luz?

O consumidor paga indiretamente, por meio das Tarifas de Uso do Sistema de Transmissão (TUST). Em geral, maior eficiência e mais competição no leilão tendem a pressionar as tarifas para baixo no longo prazo.

Fonte primária: portal InfoMoney.

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Yuri Augusto
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Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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