Cantor Noah Kahan critica Casa Branca por usar sua música em vídeo sobre visita de Trump à montadora da GM
O cantor e compositor norte-americano Noah Kahan se manifestou publicamente, nesta terça-feira (12), contra a Casa Branca após o governo de Donald Trump ter utilizado a canção "American Cars" como trilha sonora de uma sequência de fotos publicadas no Instagram oficial da residência presidencial. O post mostrava a visita do presidente ao principal centro de testes da General Motors, em Michigan, e já somava milhares de marcações de fãs alertando o artista sobre o uso não autorizado da faixa.
Segundo o portal Rollingstone.com.br, Kahan respondeu diretamente aos alertas no Instagram, em tom categórico: "Jamais aprovaria que minha música fosse usada em apoio a você ou a este governo." A declaração reacendeu o debate sobre os limites do uso político de obras musicais sem autorização de artistas, um tema que se tornou recorrente nos últimos ciclos eleitorais dos Estados Unidos.
O que aconteceu: visita, tarifa e música
Na segunda-feira (11), Trump visitou o centro de testes da General Motors em Michigan, uma das instalações mais relevantes da indústria automobilística norte-americana. Durante a passagem, o presidente aproveitou para comemorar publicamente a imposição de tarifas sobre a indústria automotiva — uma de suas medidas mais polêmicas no atual mandato — e chegou a soltar um soco no ar enquanto acompanhava uma corrida de arrancada, gesto capturado nas fotos oficiais.
A sequência foi postada no perfil @whitehouse do Instagram acompanhada por "American Cars", música lançada por Kahan em 2024. A escolha gerou estranhamento entre os fãs porque a letra, segundo o próprio artista, foi escrita como uma declaração de carinho à irmã dele, Sasha, descrevendo-a como a pessoa que "resolve os problemas da família". Não se trata, portanto, de uma canção de conteúdo político-eleitoreiro, o que torna o uso ainda mais controverso.
Quem é Noah Kahan e por que a música tem peso simbólico
Noah Kahan é um cantor e compositor de folk e pop originário de Strafford, pequena cidade do estado de Vermont, nos Estados Unidos. Ele ganhou projeção internacional a partir de 2022 com o álbum Stick Season, que figurou por meses nas paradas de países como EUA, Canadá, Reino Unido, Austrália e Irlanda. Antes do estouro, Kahan já tinha uma base sólida de ouvintes construída de forma independente, com turnês em casas pequenas e forte presença em plataformas de streaming.
No Brasil, o artista também ganhou espaço considerável nos últimos anos, com públicos que lotaram casas de show em São Paulo e no Rio de Janeiro em sua passagem pela América do Sul. A faixa "Stick Season" figura entre as mais reproduzidas por ouvintes brasileiros do gênero folk, o que dá um peso extra à tentativa da Casa Branca de associar a imagem do governo americano à obra de Kahan.
A música "American Cars" integra o repertório mais recente do cantor e carrega um tom intimista e familiar, característico do estilo de Kahan. É justamente essa distância entre o conteúdo emocional da canção e o contexto político-econômico do vídeo da Casa Branca que motivou a rápida reação do público.
Por que artistas se opõem ao uso de músicas em contextos políticos
Há anos, artistas de diferentes vertentes nos Estados Unidos — e também no Brasil — reclamam quando suas faixas são associadas a campanhas, governos ou movimentos sem permissão. Casos emblemáticos incluem:
- Bruce Springsteen, que em 2024 declarou publicamente apoio à candidatura de Kamala Harris e manifestou aversão ao uso de suas músicas em comícios republicanos;
- Neil Young, que em 2021 retirou seu catálogo do Spotify em protesto contra a desinformação;
- Adele, R.E.M. e Pharrell Williams, que já enviaram notificações extrajudiciais pedindo a retirada de suas músicas de eventos ligados a Trump;
- Foo Fighters, Rihanna, Aerosmith e outros, que se posicionaram contrariamente ao uso de suas faixas pela campanha republicana em 2020.
A razão é simples: do ponto de vista jurídico, a performance pública de músicas gravadas por terceiros em eventos políticos costuma ser coberta por licenças coletivas negociadas por entidades como a ASCAP, BMI e SESAC nos Estados Unidos. Quando se trata de vídeos oficiais publicados em redes sociais ou usados em conteúdo promocional — como o post da Casa Branca — as regras podem ser mais restritivas e envolver os detentores dos direitos fonomecânicos, explicou à imprensa norte-americana o advogado especialista em entretenimento Jay Cooper, em declarações reproduzidas por veículos especializados.
Até a publicação desta reportagem, segundo a Rolling Stone, nem os representantes de Kahan nem a equipe da Casa Branca haviam respondido a pedidos de comentário sobre possível pedido formal de retirada do conteúdo ou ações judiciais cabíveis.
Qual o contexto das tarifas sobre carros que Trump comemorou
O vídeo em que a música aparece não é apenas um registro de visita: trata-se de uma celebração pública de uma política econômica polêmica. Trump tem defendido a imposição de tarifas sobre veículos importados e peças automotivas como forma de proteger a indústria norte-americana e repatriar produção. A medida foi alvo de ações judiciais por parte de montadoras e comerciantes, e gerou reação de parceiros comerciais como Canadá, México, União Europeia e Japão.
A escolha da General Motors como cenário da visita não foi casual: a montadora é uma das maiores empregadoras do setor em Michigan, estado historicamente simbólico para o Partido Democrata devido à força histórica do sindicalismo automotivo. A tentativa de associar a imagem da empresa à política tarifária do governo tem leitura política evidente, o que ajuda a explicar por que a trilha sonora escolhida — uma canção intimista sobre vínculos familiares — destoa do conteúdo propagandístico do post.
Como o caso pode evoluir daqui em diante
Embora Kahan tenha publicado apenas uma mensagem pública e não tenha anunciado qualquer ação legal, existe precedente para que artistas solicitem a retirada imediata do conteúdo. Nos Estados Unidos, a Digital Millennium Copyright Act (DMCA) permite notificações de remoção em plataformas digitais, e a Casa Branca, ao utilizar contas pessoais em redes sociais, está sujeita às mesmas regras de qualquer outro usuário.
Especialistas em direito autoral ouvidos por veículos norte-americanos avaliam que, na prática, o encerramento do caso costuma se dar assim que cresce a pressão pública. Foi o que aconteceu, por exemplo, após a forte repercussão de vídeos da campanha de 2020 que usaram músicas de Tom Petty, Johnny Marr e outros artistas sem consentimento.
Para Kahan, o episódio ocorre em um momento sensível da carreira: o cantor acaba de encerrar uma turnê mundial de grande sucesso e anunciou novas datas para 2025 e 2026, o que amplia o impacto comercial de qualquer associação política — positiva ou negativa — de sua imagem.
O que esse caso significa para o leitor brasileiro
Mesmo à primeira vista distante, o episódio interessa ao público brasileiro por ao menos três motivos práticos:
- Mercado musical: O Brasil é um dos maiores mercados de música do mundo, e a disputa entre artistas e governos pelo controle da imagem pública mostra como o catálogo de um cantor pode virar peça de disputa geopolítica.
- Tarifaços e indústria: As tarifas sobre a indústria automotiva nos EUA têm efeitos indiretos sobre montadoras que operam no Brasil, como GM, Ford, Stellantis, Volkswagen e Toyota, impactando preços de veículos e componentes.
- Liberdade de expressão: O episódio reforça o debate sobre até que ponto agentes públicos podem usar obras culturais sem diálogo com seus criadores, pauta que ganha força sempre que campanhas eleitorais brasileiras se aproximam.
Perguntas frequentes sobre o caso Noah Kahan e a Casa Branca
Qual música da Casa Branca usou sem autorização?
A faixa "American Cars", de Noah Kahan, lançada em 2024, escrita como uma homenagem à irmã do cantor, Sasha.
O que Noah Kahan disse sobre o uso da música?
Nas redes sociais, o cantor afirmou textualmente: "Jamais aprovaria que minha música fosse usada em apoio a você ou a este governo."
A Casa Branca pode usar qualquer música sem pedir autorização?
Não. O uso de obras em publicações oficiais pode exigir licenças específicas, e os titulares dos direitos podem solicitar a retirada do conteúdo, inclusive via DMCA nos Estados Unidos.
Esse é o primeiro caso de artista contra o governo Trump?
Não. Diversos artistas, como Bruce Springsteen, Neil Young, Adele e Pharrell Williams, já se manifestaram publicamente contra o uso de suas canções em contextos ligados ao atual e ao anterior governo Trump.
Houve ação judicial ou pedido formal de retirada?
Até o momento, nem os representantes de Kahan nem a Casa Branca se pronunciaram oficialmente sobre eventuais medidas jurídicas, segundo a Rolling Stone.
Por que a escolha da música foi considerada "bizarra"?
Porque a letra é uma declaração de afeto familiar, sem qualquer conteúdo político, o que destoa do caráter propagandístico do post sobre tarifas.
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