O Rio Grande do Sul, que já foi um dos principais redutos eleitorais da esquerda no país, passou a registrar forte avanço da direita e do bolsonarismo, inclusive em municípios ligados à história do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A mudança aparece em Ronda Alta e Pontão, onde, segundo reportagem da BBC News, Flávio Bolsonaro liderou a votação em 2026, depois de Jair Bolsonaro ter sido o candidato mais votado no Estado em 2018 e 2022.
A transformação chama atenção porque o Rio Grande do Sul também foi um território importante para a organização da esquerda e da luta pela reforma agrária. O Partido dos Trabalhadores (PT) comandou Porto Alegre por 16 anos consecutivos e chegou ao governo estadual antes de Luiz Inácio Lula da Silva assumir a Presidência. Em 1985, a região foi palco da ocupação da Fazenda Annoni, considerada a primeira grande mobilização do MST.
O quadro, porém, não é de desaparecimento da esquerda nem de ruptura completa com a agricultura familiar e os assentamentos. Cooperativas ligadas ao MST continuam atuando e prosperando na região, e oferecem oportunidades que ajudam jovens a permanecer no campo. A mudança política ocorre ao mesmo tempo que diferentes grupos rurais convivem com novas formas de identificação econômica e partidária.
Como o Rio Grande do Sul se tornou um antigo reduto da esquerda?
A trajetória política do Estado inclui uma presença expressiva do PT em governos municipais e estaduais. Porto Alegre foi administrada pelo partido durante quatro mandatos consecutivos, somando 16 anos. O PT também conquistou o governo do Rio Grande do Sul antes da eleição de Lula para a Presidência, em 2002.
Essa história se conectou a movimentos sociais e debates sobre participação política, desigualdade e acesso à terra. No campo, a ocupação da Fazenda Annoni, em 1985, marcou uma etapa importante na mobilização dos trabalhadores rurais sem terra. O episódio ajudou a situar o Estado no início da trajetória pública do MST.
Esse passado, contudo, não determina automaticamente o comportamento eleitoral de todas as cidades ou gerações. A política local pode mudar conforme as experiências dos moradores, as condições de trabalho, as atividades econômicas e as prioridades de cada período. A reportagem da BBC mostra justamente o contraste entre a memória de mobilização agrária e o crescimento da identificação com a direita em localidades ligadas à origem do movimento.
O que aconteceu em Ronda Alta e Pontão?
Ronda Alta e Pontão têm relação com a história da mobilização que deu origem ao MST na região. Ainda assim, a BBC relata uma mudança no padrão eleitoral: em 2026, Flávio Bolsonaro foi o mais votado nos dois municípios. De acordo com a reportagem, o PT não perdia no primeiro turno presidencial nessas localidades desde 1989.
O dado é significativo como sinal de mudança, mas não explica sozinho por que os eleitores mudaram de preferência. Também não permite concluir que todos os moradores dos municípios passaram a apoiar a direita ou que a mesma tendência se repete em todo o Estado. Resultado eleitoral e identidade política são fenômenos relacionados, mas não idênticos.
O contexto estadual ajuda a dimensionar a mudança. Jair Bolsonaro foi o candidato mais votado no Rio Grande do Sul nas eleições presidenciais de 2018 e 2022. O avanço conservador, portanto, não se limita aos municípios ligados ao MST, embora os resultados de Ronda Alta e Pontão ganhem destaque pelo contraste com o histórico político local.
Por que parte do campo se aproxima do bolsonarismo?
Uma explicação apresentada na reportagem vem de Luis Fernando Costa Nunes, vereador do PL em Pontão e filho de pequenos agricultores. Ele associa a aproximação do agronegócio com o bolsonarismo ao apoio que, em sua avaliação, o governo Bolsonaro dava ao setor. A fala expressa a leitura de um representante local, não uma pesquisa que demonstre a opinião de todos os produtores rurais.
A palavra “agronegócio” também abrange realidades diferentes. Pode se referir a grandes propriedades, mas inclui uma cadeia ampla de produção, comercialização e atividades relacionadas à agricultura. A agricultura familiar, os pequenos produtores e as cooperativas têm características próprias; por isso, não é correto tratar toda a população rural como um grupo uniforme, com os mesmos interesses ou posições políticas.
Essa distinção é importante para entender a mudança no Rio Grande do Sul. O crescimento de uma identificação com o agro e com a direita pode coexistir com a continuidade de cooperativas ligadas ao MST. Os dois fenômenos não se anulam: uma pessoa pode viver em uma região marcada pela reforma agrária e, ao mesmo tempo, apoiar projetos políticos associados ao agronegócio.
O material apresentado pela BBC não identifica uma causa única para a guinada eleitoral nem traz dados para medir o peso de cada fator. A avaliação de Nunes oferece uma pista sobre como parte dos moradores interpreta a relação entre política e setor rural. Mas, para explicar o comportamento de eleitores, seria necessário considerar outras evidências, como pesquisas de opinião, resultados por município e a evolução das atividades econômicas locais.
As cooperativas do MST ainda têm força na região?
Sim. Segundo a BBC, cooperativas ligadas ao MST prosperam na área e são referência para o movimento. Elas também ajudam a criar oportunidades de trabalho e condições de vida que permitem a muitos jovens permanecer nos assentamentos, em vez de deixar o campo.
Esse ponto impede uma leitura simplificada de que a mudança eleitoral teria eliminado a presença do MST ou da organização coletiva. A permanência de cooperativas mostra que a região reúne experiências políticas e econômicas diversas. Para os moradores, a oferta de trabalho e as condições cotidianas nos assentamentos podem ter impacto concreto, independentemente de como cada pessoa vota.
O caso também evidencia que disputas sobre terra e produção não se resumem a uma oposição entre “campo” e “cidade”. Dentro do próprio meio rural há diferentes tipos de propriedade, organizações e formas de produzir. A relação entre esses grupos e os partidos pode mudar sem que as instituições locais desapareçam.
O que a mudança política significa para o Brasil?
O caso gaúcho ajuda a compreender por que antigas associações entre uma região e determinado campo político não devem ser tratadas como permanentes. O Estado já foi referência para a esquerda, mas os resultados recentes mostram espaço crescente para candidatos da direita. A mudança também alcança municípios cuja história está ligada a movimentos sociais rurais.
Para o debate nacional, a principal lição é evitar explicações automáticas. A presença do agronegócio não determina, por si só, o voto de cada produtor; da mesma forma, a história de um assentamento ou de um movimento social não garante apoio eleitoral contínuo à esquerda. As cooperativas ligadas ao MST e os resultados favoráveis ao bolsonarismo podem coexistir na mesma região.
A reportagem da BBC oferece relatos e um recorte territorial para observar essa transformação. O que ela não permite, com as informações disponíveis, é afirmar que todos os eleitores rurais mudaram de posição ou que um único motivo explica a tendência. Acompanhar pesquisas e resultados de outras localidades será importante para avaliar se o movimento se mantém e como se distribui pelo Estado.
Perguntas frequentes
Por que o Rio Grande do Sul já foi considerado um reduto da esquerda?
O PT governou Porto Alegre por 16 anos consecutivos e conquistou o governo estadual antes de Lula chegar à Presidência. O Estado também teve papel importante na mobilização que levou à ocupação da Fazenda Annoni, em 1985.
Quem venceu em Ronda Alta e Pontão em 2026?
Segundo a reportagem da BBC News, Flávio Bolsonaro foi o mais votado nos dois municípios. A fonte também afirma que o PT não perdia o primeiro turno presidencial nessas localidades desde 1989.
O agronegócio e o MST são forças incompatíveis na região?
Não necessariamente. A reportagem relata avanço da identificação com o agronegócio e a direita, mas também informa que cooperativas ligadas ao MST continuam prosperando e apoiando a permanência de jovens nos assentamentos.
O que explica a aproximação de parte do campo com o bolsonarismo?
Um vereador do PL citado pela BBC associa essa aproximação ao apoio que atribui ao governo Bolsonaro para o agronegócio. A informação é uma avaliação local e não comprova que esse seja o motivo de todos os eleitores rurais.
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