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Trump no Brasil: pressão tende a fracassar, diz cientista

Especialista alerta que tarifas impostas devem atingir principalmente a própria economia norte-americana, e não a brasileira.

Trump no Brasil: pressão tende a fracassar, diz cientista

O governo de Donald Trump vem tentando interferir na corrida presidencial brasileira por meio de tarifas comerciais, sanções a autoridades e revogação de vistos, mas a estratégia tende a produzir o efeito contrário ao desejado por Washington, afirma o cientista político alemão Peter Birle, um dos mais reconhecidos especialistas europeus em Brasil. Em entrevista ao portal BBC News, Birle afirma que a "história recente da América Latina mostra que esse tipo de pressão externa costuma dar certo" — referência ao respaldo de Trump a Javier Milei na Argentina — e compara o momento atual a um episódio de 1946, quando os Estados Unidos tentaram barrar a ascensão de Juan Perón na Argentina e acabaram ajudando a elegê-lo.

Quem é Peter Birle, o cientista político que acompanha o Brasil há mais de duas décadas

Diretor de pesquisa do Instituto Ibero-Americano de Berlim e avaliador do Brasil no BTI (Índice de Transformação da Fundação Bertelsmann), Birle estuda o país desde o início dos anos 2000. Fala português com desenvoltura e, segundo a BBC News Brasil, às vezes solta expressões em espanhol, fruto de décadas dedicadas a toda a região.

Conhecido pelo rigor nas análises sobre democracia latino-americana, Birle participa anualmente da avaliação do BTI, um índice que mede a qualidade da democracia, do Estado de direito e da governança econômica em 137 países. Sua leitura sobre o Brasil costuma influenciar relatórios europeus sobre o estado institucional do país.

O que lembra 1946: a tentativa fracassada dos EUA contra Perón

Segundo o especialista, há um paralelo importante entre a atual ofensiva americana e a postura de Washington em relação à Argentina de meados do século XX. Em 1946, os Estados Unidos tentaram impedir a chegada de Juan Domingo Perón à Casa Rosada. O resultado foi o oposto do pretendido: a pressão externa reforçou a imagem de Perón como defensor da soberania nacional e o ajudou a vencer as eleições.

De acordo com Birle, a comparação ajuda a entender por que a estratégia de Trump pode não funcionar no Brasil: "Quando há pressão externa, há resistência interna." A lógica é simples — quanto mais Washington pressiona, mais setores da sociedade brasileira tendem a se unir em torno da defesa da autonomia nacional, independentemente de afinidades ideológicas.

"Não é uma política muito inteligente, porque tende a gerar mais resistência do que resultado", afirma o cientista político, segundo a BBC News Brasil.

Por que a interferência americana "funcionou" na Argentina, mas ainda é cedo para o Brasil

Para Birle, o cenário argentino ilustra um caso em que a interferência americana teve o efeito desejado por Trump. O respaldo explícito de Washington a Javier Milei, com apoio político e negociação rápida de acordos comerciais, contribuiu para consolidar a imagem internacional do governo libertário e fortalecer seu capital político interno.

No Brasil, porém, o quadro é distinto. O cientista lembra que as tarifas, sanções e revogações de vistos anunciadas por Trump não encontraram, até aqui, uma correlação eleitoral clara. "Ainda é cedo para saber", disse, em entrevista à BBC News Brasil poucos dias antes de embarcar para São Paulo.

A diferença, na avaliação do especialista, está no tipo de pressão exercida. Na Argentina, Washington atuou mais como aliado do que como adversário. No Brasil, a abordagem tem sido de confrontação direta, o que historicamente tende a produzir rejeição ao intervencionismo em um país com forte tradição de defesa da soberania nacional.

América Latina "virou um campo muito à direita"

Além da análise sobre a interferência americana, Birle traça um panorama regional. Para ele, a América Latina passou por uma guinada conservadora nos últimos anos, com vitórias eleitorais de governos identificados com a direita e a extrema-direita em países como Argentina, El Salvador, Equador e Chile.

Brasil, na visão do cientista, não conseguiu retomar a liderança regional que exerceu nos anos 2000, período em que governava com políticas de integração sul-americana e protagonismo diplomático. O cenário atual, segundo Birle, é de um país mais retraído no cenário continental.

O que está em jogo na próxima eleição presidencial brasileira

Um dos pontos mais destacados pelo cientista político alemão é a mudança de eixo do debate eleitoral. Diferentemente de 2022, quando a defesa da democracia foi o tema central da disputa, a eleição atual está sendo dominada por questões como economia e segurança pública.

Para o leitor brasileiro, isso significa que o debate sobre instituições democráticas deixou de ocupar o centro do ringue eleitoral, o que tem implicações práticas:

  • Agenda econômica em primeiro plano: inflação, câmbio, emprego e crescimento voltaram a ser os principais motivadores do voto.
  • Segurança pública como prioridade: violência urbana, facções criminosas e sistema prisional ganharam espaço no debate.
  • Democracia em segundo plano: temas como ataques ao sistema eleitoral, desinformação e ameaças institucional perderam centralidade na campanha.

Essa mudança, segundo Birle, indica um eleitorado mais focado em questões materiais e cotidianas do que em debates sobre o regime político — um movimento que, na sua avaliação, reflete o cansaço social após anos de polarização intensa.

Qual é o impacto concreto para o Brasil?

As medidas americanas já adotadas contra o Brasil incluem:

  • Tarifas adicionais sobre produtos brasileiros.
  • Sanções a autoridades públicas e ex-agentes estatais.
  • Revogação de vistos de figuras ligadas ao governo.

O efeito diplomático é claro: deterioração da relação bilateral e isolamento parcial do Brasil em fóruns multilaterais. O efeito eleitoral, contudo, ainda é incerto. Para Birle, a história sugere que a pressão tende a fortalecer narrativas nacionalistas e gerar resistência, em vez de fragilizar o alvo da interferência.

Próximos passos: o que observar nas próximas semanas

A viagem de Birle a São Paulo, justamente no calor da campanha, reforça a relevância internacional que a próxima eleição brasileira vem despertando. Especialistas estrangeiros, governos e organismos multilaterais acompanham de perto não apenas o resultado, mas também a integridade do processo e a capacidade do país de manter estabilidade institucional.

Segundo a BBC News, Birle defende que, independentemente do resultado das urnas, o Brasil precisa preservar canais de diálogo internacional e evitar rupturas que comprometam décadas de construção diplomática na região.

Perguntas frequentes sobre a interferência de Trump na eleição brasileira

1. O que os EUA estão fazendo para interferir na eleição do Brasil?

O governo de Donald Trump tem adotado medidas como imposição de tarifas comerciais, sanções a autoridades e revogação de vistos, segundo reportagem do portal BBC News Brasil. Essas ações são interpretadas por analistas como parte de uma estratégia de pressão política sobre o país.

2. A interferência americana costuma funcionar na América Latina?

De acordo com o cientista político Peter Birle, a interferência direta costuma gerar resistência e fortalecer o alvo da pressão, como ocorreu em 1946 na Argentina, quando os EUA tentaram barrar Perón e acabaram contribuindo para sua vitória. Quando Washington atua como aliado, em vez de adversário, o resultado pode ser diferente, como sugere o caso recente da Argentina com Milei.

3. Quem é Peter Birle?

Peter Birle é um cientista político alemão, diretor de pesquisa do Instituto Ibero-Americano de Berlim e avaliador do Brasil no BTI, índice de democracia da Fundação Bertelsmann. Estuda o Brasil desde os anos 2000 e é considerado um dos principais especialistas europeus em assuntos brasileiros.

4. Por que a democracia deixou de ser o tema central da eleição?

Segundo Birle, o debate eleitoral migrou para questões práticas como economia e segurança pública, refletindo o cansaço do eleitor após anos de polarização intensa. Em 2022, a defesa da democracia dominou a disputa; agora, pautas materiais ganharam espaço.

5. O que pode acontecer se a pressão americana continuar?

Para Birle, a tendência histórica é de que a pressão externa reforce narrativas nacionalistas e produza resistência interna, em vez de fragilizar o governo-alvo. O cientista, contudo, considera que ainda é cedo para prever o impacto eleitoral concreto no Brasil.

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Yuri Augusto
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Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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