A Ucrânia acusou a Rússia de empregar mísseis balísticos fabricados pela Coreia do Norte em uma nova onda de bombardeios que matou pelo menos nove pessoas e deixou dezenas de feridos nesta semana. A denúncia foi feita pelo presidente Volodymyr Zelensky após ataques às regiões de Zaporizhzhia, no sul do país, e Dnipropetrovsk, no leste, que atingiram instalações industriais e áreas residenciais.
De acordo com informações divulgadas pelo portal Abril.com.br, a ofensiva começou na madrugada de segunda-feira (11) e se estendeu pela terça-feira, quando Zelensky publicou na rede social X (antigo Twitter) que forças russas utilizaram "mísseis balísticos norte-coreanos, mísseis russos Zircon e bombas aéreas guiadas" contra a cidade de Zaporizhzhia. O mandatário classificou o bombardeio como um "ataque brutal, projetado para infligir o maior dano possível".
O que se sabe sobre o ataque a Zaporizhzhia
Zaporizhzhia, uma cidade industrial que abrigava mais de 700 mil habitantes antes da guerra deflagrada em fevereiro de 2022, foi o principal alvo da ofensiva. Segundo o comandante da administração militar regional, Ivan Fedorov, os mísseis atingiram "instalações e infraestruturas industriais". Imagens compartilhadas pelo oficial mostram um carro destruído por chamas em meio ao cenário de destruição.
Os números oficiais divulgados até o momento apontam para pelo menos seis mortos e 19 feridos na cidade, mas o balanço pode ser atualizado ao longo das próximas horas, uma vez que equipes de resgate seguem trabalhando nos escombros. O uso combinado de projéteis norte-coreanos e armamentos russos de alta tecnologia, como o míssil hipersônico Zircon, indica uma diversificação do arsenal empregado por Moscou, algo que especialistas já vinham alertando.
Três mortos em Dnipropetrovsk, incluindo um adolescente
No mesmo período, o Exército russo lançou ataques com drones e artilharia contra cinco distritos da região leste de Dnipropetrovsk. Segundo Oleksandr Ganja, chefe da administração militar local, três pessoas morreram, incluindo um adolescente de 15 anos. A região tem sido alvo frequente de bombardeios desde o início da invasão russa e abriga parte da linha de frente no leste ucraniano.
Por que a Coreia do Norte voltou ao centro da guerra?
A denúncia de Zelensky ocorre em um momento de intensificação da cooperação militar entre Moscou e Pyongyang, que nos últimos anos evoluiu de um acordo bilateral pontual para o que potências ocidentais classificam como uma aliança estratégica de fato. Em 2024, o presidente russo Vladimir Putin e o líder norte-coreano Kim Jong-un assinaram um Tratado de Parceria Estratégica Global, que inclui um compromisso mútuo de assistência em caso de agressão — o que reviveu ecos da aliança soviética-coreana da Guerra Fria.
Desde então, inteligência dos Estados Unidos, da Coreia do Sul e da própria Ucrânia já havia identificado o uso de projéteis norte-coreanos em território ucraniano, incluindo modelos como o KN-23 e o KN-24, mísseis balísticos de curto alcance baseados no Iskander russo e que se tornaram o principal item de exportação armamentista de Pyongyang.
Na postagem em que acusou Moscou, Zelensky afirmou, sem apresentar provas públicas no momento, que a Rússia "recebeu mais projéteis e soldados" da Coreia do Norte — uma referência direta ao suposto envio de tropas norte-coreanas para o front, informação que já havia sido divulgada por Kiev e por Seul em meses anteriores, embora Moscou e Pyongyang neguem oficialmente o envio de soldados.
Que tipos de armas foram usadas no ataque?
A mensagem de Zelensky menciona três categorias de armamento distintas, o que evidencia a estratégia russa de combinar diferentes vetores de ataque para saturar a defesa antiaérea ucraniana:
- Mísseis balísticos norte-coreanos: projéteis de curto alcance fornecidos por Pyongyang, produzidos em larga escala e de difícil interceptação por sistemas de defesa convencionais;
- Mísseis Zircon (Tsirkon): armamento hipersônico russo em desenvolvimento desde a era soviética, capaz de atingir velocidades superiores a Mach 8 e manobrar em altitudes baixas, o que complica a defesa antimíssil;
- Bombas aéreas guiadas (KAB): munições planadoras lançadas por aeronaves que corrigem a trajetória em voo e têm sido amplamente empregadas contra posições fortificadas e infraestruturas urbanas.
A combinação desses três tipos de armamentos em um único ataque sugere um esforço deliberado para testar a resiliência das defesas aéreas da Ucrânia, que depende fortemente de apoio ocidental — em especial de sistemas Patriot, fornecidos pelos Estados Unidos e por aliados europeus.
Qual a dimensão da parceria militar entre Rússia e Coreia do Norte?
As relações entre Moscou e Pyongyang ganharam novo fôlego a partir de 2022, quando a Rússia foi progressivamente isolada economicamente pelo Ocidente em razão da invasão da Ucrânia. Especialistas apontam que a Coreia do Norte oferece à Rússia três recursos estratégicos essenciais:
- Munição de artilharia e mísseis convencionais em grande quantidade, fabricados em estoques herdados da Guerra Fria;
- Tropas para reposição de efetivos, embora o envio seja negado oficialmente por ambos os governos;
- Tecnologia balística testada em combate real, o que fornece dados valiosos a Pyongyang para aprimorar seus próprios sistemas.
Em troca, Moscou tem fornecido a Pyongyang tecnologia espacial, cooperação em submarinos e apoio diplomático no Conselho de Segurança da ONU, onde vetou sanções adicionais contra o regime de Kim Jong-un. O intercâmbio preocupa profundamente Washington, Seul e Tóquio, que temem que a experiência de combate adquirida pelos norte-coreanos na Ucrânia possa ser aplicada em um eventual conflito na península coreana.
Impacto humanitário e reação internacional
Os ataques desta semana ocorrem em meio a uma das ondas mais intensas de bombardeios russos desde o início da guerra, com Moscou intensificando o uso de mísseis de longo alcance contra cidades distantes da linha de frente. A ONU e organizações humanitárias vêm registrando aumento nos civis mortos e feridos, além de danos generalizados ao sistema elétrico e à infraestrutura industrial ucraniana.
O governo Zelensky tem usado as denúncias de uso de armamentos norte-coreanos como argumento para pressionar aliados ocidentais a reforçarem o envio de sistemas de defesa antiaérea, interceptadores de míssil e munições de artilharia. A mensagem implícita é clara: enquanto Moscou contar com estoques externos quase inesgotáveis, a guerra tende a se prolongar.
O que está em jogo para o Brasil e para a comunidade internacional?
Embora o conflito esteja concentrados no leste europeu, suas repercussões alcançam diretamente o Brasil. O país é um dos principais exportadores de alimentos do mundo e depende da normalização do mercado de fertilizantes russos — fortemente impactado pelas sanções ocidentais. Além disso, o Brasil tem posição tradicional de defesa do direito internacional e da integridade territorial, e a utilização de armamentos de terceiros para atacar infraestruturas civis amplia o debate sobre responsabilidade compartilhada em conflitos armados.
Para a comunidade internacional, o episódio reforça a urgência de discutir mecanismos de controle de proliferação de armas, especialmente no que se refere a mísseis balísticos — categoria que, segundo especialistas, é uma das menos reguladas por tratados multilaterais.
Perguntas frequentes
1. A Rússia realmente está usando mísseis da Coreia do Norte?
Sim. Kiev, Washington e Seul já documentaram o uso de projéteis norte-coreanos em território ucraniano desde 2023. A novidade do anúncio desta semana é a reincidência pública da denúncia por Zelensky.
2. O que são os mísseis Zircon citados por Zelensky?
São mísseis hipersônicos russos de longo alcance, projetados para atingir alvos navais e terrestres a velocidades superiores a Mach 8. Sua capacidade de manobra em baixa altitude dificulta a interceptação.
3. A Coreia do Norte está enviando soldados para a Ucrânia?
Kiev e Seul já acusaram Pyongyang de enviar tropas para o front, mas Moscou e Pyongyang negam oficialmente o envio de soldados. A alegação não foi confirmada de forma independente por órgãos multilaterais.
4. Por que Zelensky denuncia o uso de mísseis norte-coreanos?
A denúncia busca pressionar aliados ocidentais a reforçarem a ajuda militar à Ucrânia e a imporem sanções mais duras contra Pyongyang e Moscou.
5. Qual a situação atual em Zaporizhzhia?
A cidade, que já foi maior que 700 mil habitantes, está sob ataques recorrentes desde o início da guerra e abriga a maior usina nuclear da Europa, fator que torna a região especialmente sensível a escalada militar.
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