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Estudo propõe duas origens distintas para a vida na Terra

Pesquisa sugere que ancestrais microbianos e formas celulares mais elaboradas podem ter surgido separadamente em ambientes químicos opostos.

Estudo propõe duas origens distintas para a vida na Terra

Estudo publicado na Science Advances reacende debate sobre a origem da vida na Terra

Um estudo publicado na última quarta-feira (05) na revista Science Advances propõe uma mudança de paradigma na biologia evolutiva: bactérias e arqueias — os dois grandes domínios de microrganismos do planeta — podem ter alcançado a condição de organismos vivos por trajetórias evolutivas separadas. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Heinrich Heine de Düsseldorf, na Alemanha, analisou enzimas envolvidas no metabolismo e concluiu que cada grupo teria desenvolvido soluções próprias para superar uma etapa considerada decisiva entre a química não viva e os primeiros seres capazes de sobreviver de forma autônoma.

Segundo a reportagem do portal Olhardigital.com.br, a descoberta sugere que o ancestral comum universal, conhecido pela sigla LUCA (Last Universal Common Ancestor), não representaria necessariamente o único ponto inicial da vida celular. Em vez disso, a história da vida na Terra poderia ter duas origens distintas após uma fase química compartilhada.

O que os pesquisadores encontraram

A equipe de Düsseldorf partiu de uma pergunta simples, porém profunda: como sistemas químicos inertes se transformaram em organismos capazes de obter energia, crescer e se reproduzir? Para responder, os pesquisadores se concentraram no metabolismo, considerado por diferentes definições biológicas uma característica essencial dos seres vivos.

Ao comparar enzimas metabólicas de bactérias e arqueias, o grupo identificou diferenças estruturais e funcionais tão marcantes que a hipótese mais parcimoniosa passou a ser a de duas soluções independentes para o mesmo problema bioquímico. Em outras palavras, os dois domínios não apenas divergiram depois de existir — eles podem ter "se tornado vivos" por caminhos distintos.

O que é o LUCA e por que ele é central nesse debate

LUCA é o nome dado ao hipotético organismo do qual todos os seres vivos atuais descenderiam. A ideia, consolidada nas últimas décadas pela biologia molecular, é de que toda a vida celular conhecida compartilha um ancestral comum remoto, há estimados 3,5 a 4,2 bilhões de anos.

O novo estudo não elimina o LUCA, mas desloca seu significado. Em vez de ser o "primeiro ser vivo", LUCA passaria a ser interpretado como o ponto de chegada de uma fase química pré-biológica — um cenário no qual a matéria orgânica teria se organizado, posteriormente, em dois sistemas vivos independentes que depois se fundiram no tronco comum que conhecemos.

O dilema evolutivo que travava a pesquisa

O estudo aborda um problema clássico da origem da vida, conhecido como dilema do ovo e da galinha metabólico: as enzimas — proteínas que aceleram reações químicas — são produzidas por organismos vivos, mas os primeiros sistemas vivos precisavam realizar reações químicas antes mesmo de possuir essas estruturas.

Para bactérias e arqueias, a resposta a esse dilema parece ter sido diferente. As arqueias, por exemplo, possuem membranas celulares com lipídios distintos das bactérias e dependem de vias metabólicas que, em vários pontos, não se sobrepõem às bacterianas. O detalhamento enzimático feito pelos pesquisadores alemães reforça essa separação.

Como essa descoberta se encaixa no que já se sabia

A hipótese de que a vida poderia ter surgido mais de uma vez não é inédita. Ao longo das últimas décadas, outras linhas de pesquisa já haviam sugerido que a vida poderia ter se originado em múltiplos eventos a partir de um mesmo "caldo" químico. O que o estudo de Düsseldorf aporta é uma base molecular mais robusta, baseada em dados de enzimas específicas.

Esse tipo de evidência é importante porque grande parte do debate sobre a origem da vida depende de inferências indiretas: registros fósseis raros, simulações em laboratório (como o clássico experimento de Miller-Urey, de 1953) e modelos computacionais. Ter dados enzimáticos comparativos dá à hipótese um pilar experimental a mais.

Especialistas ouvidos em coberturas internacionais geralmente lembram, porém, que o tema é intrinsecamente difícil de testar. Não há como simplesmente "abrir" rochas de 4 bilhões de anos e confirmar o que aconteceu. Por isso, novas hipóteses costumam conviver até que uma linha de evidência se torne dominante.

O que muda para a ciência — e para o leitor

Para o leitor brasileiro, ainda que o tema pareça distante, as implicações são significativas. Compreender como a vida se originou ajuda a:

  • Orientar a busca por vida fora da Terra: missões espaciais e rovers em Marte, por exemplo, usam os mesmos marcos químicos para decidir o que vale a pena investigar.
  • Aprimorar estudos sobre extremófilos: muitas arqueias vivem em ambientes extremos (fontes hidrotermais, salinas, solos ácidos), e entender sua origem pode revelar limites mais precisos da vida em condições adversas.
  • Avançar em biotecnologia: enzimas de arqueias já são usadas em técnicas de laboratório, como a PCR, justamente por funcionarem em temperaturas elevadas.

No Brasil, grupos de pesquisa em astrobiologia, microbiologia e bioquímica acompanham de perto o tema. Universidades públicas e o INPE mantêm linhas relacionadas à busca de vida e à compreensão de ambientes extremos, áreas que se beneficiam diretamente de revisões como a publicada na Science Advances.

Quais são os próximos passos da pesquisa

A equipe de Düsseldorf ainda não publicou declarações amplas sobre etapas seguintes, mas o caminho natural da investigação envolve:

  1. Ampliar o catálogo de enzimas metabólicas comparadas entre bactérias e arqueias;
  2. Reconstruir computacionalmente as possíveis rotas químicas ancestrais;
  3. Testar em laboratório se essas rotas podem surgir de forma independente em condições pré-bióticas plausíveis.

A comunidade científica costuma demorar para consolidar mudanças desse porte. É provável que, nos próximos anos, outros grupos revisem os dados e publiquem replicações ou contestações — processo normal e saudável da ciência.

Perguntas frequentes sobre a origem da vida

O que é o LUCA?
LUCA (Last Universal Common Ancestor) é o hipotético organismo — ou sistema biológico — do qual todos os seres vivos atuais teriam descendido. Estima-se que tenha vivido há entre 3,5 e 4,2 bilhões de anos.

Qual a diferença entre bactérias e arqueias?
Bactérias e arqueias são dois dos três domínios da vida (o terceiro é o eucariotos, que inclui animais, plantas e fungos). Apesar de serem unicelulares e visualmente parecidas ao microscópio, possuem membranas celulares, maquinarias genéticas e vias metabólicas bastante diferentes.

Se a vida surgiu duas vezes, a segunda origem desapareceu?
Pela hipótese do estudo, não. As duas linhagens se fundiram em determinado ponto, e traços de ambas estariam presentes em todo o mundo vivo conhecido. É por isso que LUCA continua sendo central — só muda o que ele representa.

Esse estudo está confirmado?
Ainda não há confirmação definitiva. A pesquisa foi publicada em periódico de alto impacto, mas o tema é debatido há décadas e exige novas linhas de evidência para se consolidar.

Isso muda como procuramos vida em outros planetas?
Indiretamente, sim. Se a vida pode surgir por mais de um caminho a partir de química semelhante, aumentam as possibilidades de que ambientes extraterrestres com as mesmas condições básicas possam abrigar organismos.

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Yuri Augusto
Escrito por
Yuri Augusto

Yuri Augusto Jornalista e entusiasta de inovação digital, Yuri acompanha de perto as principais movimentações do mercado, economia e tecnologia. Com foco em traduzir informações complexas em análises acessíveis, é o responsável por trazer os conteúdos mais relevantes e em primeira mão para os leitores do GCBS News.

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