A escalada diplomática entre Brasília e Washington ganhou mais um capítulo nesta semana com a revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos pelo governo de Donald Trump. A medida, anunciada no mesmo dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentava novos ataques do secretário de Estado americano, Marco Rubio, foi classificada por analistas como mais um movimento de uma crise bilateral que se prolonga desde o início do ano.
O episódio foi analisado em entrevista ao portal BBC News pelo cientista político britânico Anthony Pereira, uma das principais referências internacionais sobre o Brasil. Segundo o título da publicação britânica, Pereira avalia que o governo Trump tem priorizado uma "guerra ideológica" com o País em detrimento dos interesses estratégicos americanos na maior economia da América Latina.
Quem é Anthony Pereira, o cientista político que estuda o Brasil desde 1989
Anthony Pereira dirige o Roger Thayer Stone Center for Latin American Studies, na Universidade Tulane, em Nova Orleans, e fundou o Brazil Institute do King's College, em Londres, que comandou por uma década. Acompanha as eleições brasileiras desde 1989 — ano da primeira disputa presidencial direta após a ditadura militar — e é autor de obras de referência sobre a região, entre elas Ditadura e Repressão, que analisa a legalidade autoritária nos regimes militares do Brasil, do Chile e da Argentina.
Essa trajetória faz de Pereira uma das vozes mais ouvidas em universidades, governos e think tanks estrangeiros quando o tema é o Brasil. Sua leitura sobre o momento atual costuma servir como termômetro para diplomatas, pesquisadores e jornalistas que cobrem o país.
Os gatilhos da crise entre EUA e Brasil
A entrevista concedida por Pereira foi realizada em meio a uma sequência de movimentos que pioraram as relações bilaterais em poucos dias. Segundo o relato da BBC News, três fatos se destacaram:
- Revogação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, sem que o Itamaraty tivesse sido notificado previamente;
- Ataques públicos do secretário de Estado, Marco Rubio, ao presidente Lula, ampliando a retórica hostil adotada pela Casa Branca desde o início do ano;
- Indicação de um novo embaixador americano para Brasília sem a tradicional consulta prévia (o chamado agrément) ao governo brasileiro, descumprindo protocolo básico entre países com relações diplomáticas formais.
Por que a Casa Branca revogou o visto da embaixadora?
O gesto foi interpretado como retaliatório. Embaixadores representam o chefe de Estado e, na prática diplomática, a revogação de vistos a altos funcionários costuma ser reservada a casos graves de expulsão, espionagem ou ruptura aberta de relações. O Itamaraty ainda não havia confirmado, até o fechamento desta matéria, se adotaria reciprocidade no caso, mas o episódio é considerado o ponto mais alto da crise desde a posse de Trump.
O que está em jogo: por que o Brasil interessa aos EUA?
Apesar do discurso ideológico da administração americana, o Brasil é parceiro estratégico dos Estados Unidos em frentes que vão muito além da política. A relação bilateral envolve:
- Comércio da ordem de US$ 80 bilhões anuais, com superavit histórico para o Brasil em setores como aço, alumínio, petróleo, aviação e alimentos;
- Cooperação militar e de inteligência, inclusive em operações conjuntas na faixa de fronteira e na Amazônia;
- Diálogo ambiental, em particular sobre desmatamento e mudanças climáticas;
- Coordenação em fóruns multilaterais como ONU, G20, Brics e OMS;
- A maior comunidade brasileira no exterior, estimada em cerca de 2 milhões de pessoas vivendo em território americano.
Para Pereira, a leitura do governo Trump sobre essa relação estaria descolada da realidade. Em vez de priorizar o diálogo, a administração americana teria escolhido o confronto direto com o Palácio do Planalto — uma postura que, segundo o cientista político britânico, contraria o cálculo de longo prazo da diplomacia americana.
2022, 2026 e o paradoxo da democracia brasileira
Em 2022, a eleição presidencial brasileira foi disputada em grande medida em torno de uma única questão: a sobrevivência da democracia. Anthony Pereira acompanhou de perto aquele processo e, segundo a BBC News, teme que 2026 seja diferente — e que isso, paradoxalmente, seja o maior risco.
Qual é o paradoxo identificado por Pereira?
O raciocínio do analista parte da leitura de que, se em 2022 o debate se organizou em torno da defesa do regime democrático, em 2026 a disputa pode se concentrar em temas nos quais os dois lados parecem convergir em alguns pontos — como economia, segurança pública e costumes —, diluindo a vigilância da sociedade sobre eventuais sinais de ruptura institucional.
Para Pereira, essa mudança de foco pode ser mais perigosa do que um confronto explícito sobre autoritarismo, justamente porque retira da opinião pública o referencial claro que orientou a reação da sociedade em 2022. Essa avaliação ganha peso à luz do que o cientista político classificou como a ascensão de "a grande estrela global da direita": o presidente argentino Javier Milei.
O eixo Milei-Bolsonaro e a crise com a Argentina
Dias antes da entrevista, Javier Milei viajou a São Paulo para participar do lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro (PL). No palanque, o presidente argentino chamou Lula de "ladrão", "corrupto" e "presidiário", episódio que culminou na decisão do governo brasileiro de rebaixar o nível das relações diplomáticas com Buenos Aires.
Para Pereira, conforme relatou a BBC, o episódio diz menos sobre a política externa argentina do que sobre o próprio Milei. O cientista político descreveu o mandatário como alguém dividido entre o presidente que precisa recuperar a economia do país e a tentação de se tornar uma espécie de porta-bandeira global do conservadorismo radical. A aliança com Flávio Bolsonaro — e, por tabela, com o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados — seria parte dessa construção de imagem internacional.
O que motivou a crise entre Brasil e Argentina?
O entrelaçamento entre a direita radical argentina e o bolsonarismo não é novo, mas ganhou densidade nos últimos meses, com visitas cruzadas, declarações inflamadas e o uso compartilhado de símbolos nas redes sociais. Para observadores, o movimento tenta consolidar um "Eixo Milei-Bolsonaro" capaz de projetar força eleitoral em ambos os países antes das eleições de 2026.
Quais os possíveis desdobramentos da crise?
Os próximos passos ainda são incertos. Entre os cenários em análise:
- Retaliação brasileira ao cancelamento do visto da embaixadora, com eventual convocação do embaixador americano para explicações ou rebaixamento adicional de status diplomático;
- Novas sanções ou tarifas sobre produtos brasileiros, no estilo das medidas adotadas pela Casa Branca contra governos da região considerados adversários ideológicos;
- Articulação no Congresso Nacional, com parlamentares da base governista e da oposição podendo pressionar o Itamaraty por uma resposta mais firme ou, ao contrário, por prudência;
- Reunião presidencial para definir uma posição única do governo Lula diante da escalada.
No campo regional, a relação com a Argentina seguirá sob tensão após o rebaixamento diplomático. A questão é saber se Buenos Aires pretende recuar nas ofensas públicas — algo pouco provável dada a estratégia de comunicação adotada por Milei — ou se o Brasil manterá a postura firme até que o governo argentino faça algum gesto concreto de reaproximação.
Em comum, em ambos os fronts, persiste o alerta de Anthony Pereira: o risco de que a política externa americana, ao tratar o Brasil como inimigo ideológico, comprometa interesses concretos dos próprios Estados Unidos. E, no front doméstico, o risco de que 2026 não repita o efeito pedagógico de 2022 sobre a defesa da democracia.
Perguntas frequentes
O que motivou a revogação do visto da embaixadora brasileira nos EUA?
A medida foi adotada pelo governo Trump como parte de uma escalada de hostilidades com o Palácio do Planalto. Não houve, até o momento, justificativa oficial detalhada; o gesto foi interpretado como retaliatório por analistas ouvidos pela BBC News.
Quem é Anthony Pereira?
É um cientista político britânico, professor e pesquisador, considerado uma das maiores autoridades internacionais sobre o Brasil. Dirige centro de estudos na Universidade Tulane, em Nova Orleans, e fundou o Brazil Institute no King's College, em Londres.
Por que o Brasil é estratégico para os Estados Unidos?
A relação bilateral envolve comércio da ordem de US$ 80 bilhões por ano, cooperação militar, diálogo ambiental, presença em fóruns multilaterais e uma comunidade de cerca de 2 milhões de brasileiros vivendo em território americano.
Por que a visita de Milei ao Brasil gerou crise diplomática?
O presidente argentino atacou publicamente Lula durante evento político em São Paulo, o que levou o governo brasileiro a rebaixar o nível das relações diplomáticas com Buenos Aires.
Quais os riscos para as eleições de 2026, segundo o analista?
Para Anthony Pereira, o maior risco é que a próxima disputa não se organize em torno da defesa da democracia, como ocorreu em 2022, reduzindo a vigilância da sociedade sobre eventuais sinais de ruptura institucional.
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